O testemunho é você

Andy Carvin durante o 7º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo

“A diferença entre estar on-line e estar no campo é que pela internet é possível ter a noção do todo, mas o sentimento visceral do in loco é insubstituível”. Com essa frase, Andy Carvin, estrategista da rádio americana NPR, defende a complementaridade entre as ferramentas que colaboram para a produção de notícias hoje. Carvin não é jornalista por formação, mas se envolveu e encabeçou diversas coberturas jornalísticas importantes, especialmente a da Primavera Árabe. A saga começou há quatro anos, quando criou uma rede de apoio às vítimas do tsunami na Indonésia.

Apesar de simples, a ferramenta funcionava como um de grupo de e-mails pelo qual pessoas do mundo todo interagiam e compartilhavam informações. “Pessoas de todos os continentes trocavam informações e prestavam ajuda aos atingidos”, lembra Carvin. “Grupos de voluntários se organizavam para coletar informações para ajudar a Cruz Vermelha”. Segundo Carvin, a ideia fez sucesso porque a rede de colaboradores chegou a lugares em que não havia repórteres ou enviados especiais para relatar as condições locais.

Em 2007, começaram as primeiras experiências com o twitter. Para Carvin, a rede social teve papel fundamental durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2008. “Convidamos as pessoas a compartilhar os problemas observados durante a votação”, conta. “Recebemos 14 mil mensagens voluntárias e depois computamos as informações em tópicos para ter acesso às dificuldades enfrentadas pelos eleitores”.

Tunísia ou #sidibouzid

Janeiro de 2011. Era de manhã quando Carvin abriu sua conta no twitter para se interar sobre os assuntos do dia. Foi quando se deparou com a hastag “#sidibouzid”. Sem entender bem o que estava acontecendo, pediu ajuda às pessoas que seguia para decifrar o símbolo. Não havia jornalistas, não havia imprensa na cidade. Eram os 18 primeiros dias dos protestos que mais tarde seriam chamados de Revolução Árabe.

Com a ajuda de alguns conhecidos árabes, Carvin começou a montar o quebra-cabeça. Tratava-se da cidade onde um jovem – que teve seu carrinho de frutas confiscado pela polícia – ateou fogo em seu próprio corpo como forma de protesto. Pelo twitter, Carvin observava as mensagens como “crazy atmosphere” se multiplicarem. “Era o único jeito de saber o que estava acontecendo”, diz o jornalista. “A sensação era de que eu estava em um helicóptero sobrevoando a praça Tahir”. Começara a revolução. E, segundo ele, os tunisianos se sentiam encorajados para relatar o que viviam.

Embora ele próprio admita que a rede social é, na verdade, uma ferramenta efêmera – na qual é possível apenas saber o que está acontecendo num dado momento –, Carvin gosta de lembrar que ali está presente uma massa crítica disposta a dar um testemunho sobre o que observa. “Há a possibilidade de se criar uma discussão própria, independente do veículo em que se trabalha”, ressalta. “O twitter é a minha redação e é interessante utilizá-lo como fórum”. Carvin disse ainda que a diferença no tipo de jornalismo que pratica é a continuidade. Para ele, as discussões não se encerram com o fechamento de uma reportagem. “Trabalho com as fontes o tempo todo para corroborar e comprovar informações”, conta.

Hoje, Carvin se dedica à produção de um livro sobre o que motiva narradores não jornalistas a contar suas histórias. Para ele, aí está a continuidade e o futuro do jornalismo: a colaboração ancorada no tecido social, na qual o mediador (jornalista) parte do testemunho de uma fonte para tecer a história.

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