Economia

Empregos, sonhos e Copa do Mundo

É preciso ficar atento para não errar o caminho. Em meio a dois longos corredores com uma centena de ônibus e vans, apenas um leva ao portão número dois. Lá estava o Jardim São Carlos, pequeno e lotado de pessoas arrumadas, prontas para chegarem aos seus postos de trabalho. Da estação, a faixa imponente anuncia “Arena Corinthians – Odebrecht”. E da janelinha do microônibus, a construção ficava cada vez mais próxima.

Meses antes, José Ricardo Rodrigues, de 21 anos, soube pela televisão que o setor de construção civil contratava profissionais para trabalhar nas obras da Copa do Mundo. Foi então que ele decidiu deixar de ajudar o pai a vender extintores de incêndio para se juntar aos 2.200 trabalhadores que erguem o estádio que sediará a abertura da Copa do Mundo. Francisco Fábio Viana da Silva já tinha alguma experiência como auxiliar de construção, então, decidiu sair de casa e se candidatar ao curso de qualificação, oferecido pela construtora, para começar na obra. “Quando não estiver mais trabalhando aqui vou fazer uma faculdade de engenharia civil”, conta ele.

Vista do ponto mais alto do Itaquerão
Arquibancada já construída leva a faixa do Corinthians campeão da Libertadores

Hoje, Francisco e José Ricardo aumentam a lista de funcionários da Odebrecht que trabalha de sol a sol para entregar o estádio dentro do prazo estipulado. Todos os dias, quando o relógio marca 7 horas é chegado o momento de vestir o uniforme azul, apertar o capacete de proteção, deixar os óculos escuros a postos e calçar a bota preta machada de barro. Mesmo sob a temperatura de 34ºC, eles afirmam que o sapato apertado e fervilhando nos pés não incomoda. São unânimes em dizer: “a gente se acostuma”. Subir e descer escadas de ferro improvisadas e conhecer da ala norte a sul da obra também deve ser uma questão de costume, dada a rapidez com que o fazem. Que quem trabalha ali, no Itaquerão tem um orgulho danado de receber visitas e mostrar a grandiosidade da construção.

Voltando um pouco nos anos, situação semelhante devem ter passado os trabalhadores que ergueram Brasília nos tempos de Juscelino. Tornar-se parte da história e depois contar aos filhos quem foi que colocou tijolo sobre tijolo – concreto sobre concreto antes de tudo começar. Tudo é tão exuberante que, sem um olhar atento, corre-se o risco de não enxergar o dia seguinte. O Brasil está hoje, por diversas razões, no epicentro do mundo. Dizer que as atenções internacionais estão voltadas a nós já não surpreende. Portanto, parece evidente que um dos maiores legados da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos seja a geração de empregos. O grande problema, porém, e este não tão perceptível, é a ilusão criada em torno dessas oportunidades.

Francisco e José Ricardo terão o mesmo olhar ansioso e esperançoso quando a Copa e a Olimpíada terminarem? O que acontecerá com essa mão de obra amplamente utilizada hoje pelas empresas? Setores como hotelaria, gastronomia e turismo já sentem dificuldade em contratar pessoas que possuam a qualificação adequada. Diante disso, o sistema S – que inclui Senac, Sesc, Sesi e Senai – se apressou em oferecer diversos cursos de capacitação. Empresas se justificam dizendo que a Copa e os jogos são apenas o “ponta-pé inicial”, que “quem tiver visão, saberá aproveitar esse momento para começar um negócio promissor”.

Vista do ponto mais alto do Itaquerão
Vista do ponto mais alto do Itaquerão

A verdade, não muito aparente, é que estão sendo contabilizadas no saldo final da geração de empregos vagas diretas e indiretas. Fixos e temporários. Ninguém consegue prever o quanto a mão de obra no Brasil estará mais qualificada depois desses eventos. Muitas empresas, independentemente do setor de atuação, não informam com precisão qual será o futuro dessa mão de obra empregada depois dos eventos esportivos. Se essas pessoas serão absorvidas por outros departamentos, serão despedidas ou enviadas para outras atividades. Assim, é importante se conscientizar de que o Brasil não se tornará um paraíso de oportunidade de um ano para o outro. E tão relevante quando aproveitar o momento é se planejar para enfrentar o cenário quando a euforia baixar.

Ricardo (à esq.) e Francisco (à dir.), da Odebrecht

O Sebrae, por exemplo, criou o programa Sebrae 2014 que incentiva pequenos e médios empreendedores a estruturar seus negócios de modo a gerar maior lucratividade no período do Mundial. Donos de restaurantes, lojas e comercio em geral poderão ampliar seus serviços nesse período. Assim, além de movimentar a economia no País, poderão inspirar outros trabalhadores a pensar seu futuro profissional a longo prazo. Sem euforia e sem ilusões.

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