Política

Menos instituição e mais manifestação

Se fosse para hastear uma bandeira e reivindicar nas ruas mudanças no cenário político, certamente a frase que intitula esse texto faria muito mais sentido do que a sigla de um partido ou seu slogan eleitoral. O mais incômodo – e frustrante – nos dias que sucedem as eleições é acompanhar o debate sobre quem ganhou e quem perdeu a disputa. O embate de ideias e pontos de vista, claro, deve ser sempre fomentado e é por meio dele que os argumentos se fortalecem ou se transformam. Mas, infelizmente, o que transparece depois da eleição é o nível raso das discussões sobre aquilo que se imagina como política.

Ato simbólico anticorrupção em Brasília
Ato simbólico anticorrupção em Brasília

A moda hoje é falar sobre o mensalão. Pudera, nunca se teve notícia de um esquema de desvio de dinheiro tão impactante da história da política recente, certo? Errado. O julgamento do mensalão é, de fato, um divisor de águas na política nacional. Mas, ele se torna alvo dos mais diversos tipos de comentários e análises de 140 caracteres porque é o tema que ganhou maior destaque pela imprensa brasileira nos últimos meses.

Outros fatos tão ou mais importantes ocorrem ao mesmo tempo, mas não são cobertos com a mesma ênfase (massacre dos guaranis-kaiowás, por exemplo). É fácil questionar nas ruas o que o cidadão comum acha da política e ter como resposta qualquer comentário semelhante a “todo político é ladrão”. Essa é a ideia mais superficialmente repetida dos últimos tempos. E o objetivo desse texto não é fazer a defesa de qualquer político ou legenda.

Acima, acordo entre Lula, Haddad e Maluf / Abaixo, a tristeza das famílias de Pinheirinho
Acima, acordo entre Lula, Haddad e Maluf / Abaixo, a tristeza das famílias de Pinheirinho

Para citar passagens mais recentes: é impossível esquecer a parceria político-partidária entre o PT do ex-presidente Lula e o PP do ex-prefeito Paulo Maluf em prol da propaganda eleitoral do então candidato Fernando Haddad. A imagem do acordo que ganhou todos os meios de comunicação decepcionou eleitores, simpatizantes, membros do partido e a tradicional militância petista. E o pior, exacerbou o caráter pragmático da política brasileira. Os tucanos, símbolo do conservadorismo de São Paulo, por sua vez, não podem se esquecer do escândalo sem precedentes que foi a invasão na comunidade de Pinheirinho. As 1.600 famílias continuam esperando uma justificativa para o uso da pressão e da truculência que os tiraram de lá.

Por isso, é importante dizer que política não é aquilo que acontece apenas na esfera institucional. Partidos, congresso, parlamentares e os demais ícones do poder enfrentam hoje o desafio absoluto de reconquistar a sociedade civil. A política acontece nos movimentos sociais, nas reivindicações, nas mobilizações organizadas a partir do povo. E esses movimentos não precisam ser necessariamente apolíticos, ou seja, negar a política em seus padrões atuais. As pessoas precisam entender que as instituições não são o fim em si. São apenas o meio para se alcançar algo.

Quem quiser fazer uma crítica contumaz ao sistema político tradicional, por favor, não se limite a superficialidade do resultado das eleições. Mais útil do que saber se um parlamentar é corrupto ou não é investigar e entender que tipo de sistema é esse em que vivemos, que impõe o voto obrigatório, que nos faz votar em pessoas e não em ideias, que estimula o surgimento de pequenas legendas sem programa de governo, que nos faz acreditar que votar em “celebridades” é alguma forma de protesto. Votar nos puxadores de votos é assinar um atestado de desinformação política. Se for para tecer alguma crítica, vamos entender primeiro como é o berço em que se deitam os políticos nos quais votamos.

Não vamos acreditar que o sistema em que vivemos hoje é de fato uma democracia, no qual todos os atores desse largo e diverso tecido social têm a mesma voz e o mesmo peso. Essa ainda precisamos construir.

Anúncios

Um comentário em “Política

Adicione o seu

  1. O triste é ter que ouvir/ ler comentários pós-eleições como “povo burro” ou pior ainda, quando algo negativo sobre o novo governo é divulgado: “bem feito”. Deveríamos todos torcer para que o eleito seja o melhor possível, apesar das discordâncias!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: