Um dia pela causa Guarani-Kaiowá

Manifestação em solidariedade aos índios Guarani-Kaiowás na Paulista
Manifestação em solidariedade aos índios Guarani-Kaiowás na Paulista

O dilema que envolve os índios Guaranis-Kaiowás passa por dois pontos fundamentais da história brasileira: a distribuição de terras e o aniquilamento cultural dos povos. Entretanto, ambos as questões caíram, nos últimos tempos, num esquecimento coletivo sem precedentes. O desenvolvimento do País ocorre paralelamente à disputa por terras e à falta de programas de proteção à dignidade indígena. Nesse contexto, vem ganhando força a luta contra um massacre, que já existe há 12 anos, nas margens do rio Dourados, no Mato Grosso do Sul. Nas últimas semanas, quase 20 cidades brasileiras organizaram atos de solidariedade às tribos Guarani e Kaiowá. Os protestos exigiram medidas imediatas contra a violência de fazendeiros que invadem e ocupam as terras indígenas.

O número de mortes e violência atingiu patamares assustadores. Dos 503 assassinatos de indígenas registrados entre 2003 e 2011, 279 são de Guarani-Kaiowá. Dados do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) contabilizam 555 casos de suicídio nos últimos dez anos. O mais alarmante é que, segundo os líderes indígenas, as atrocidades acontecem sem que o governo estadual ou federal tome providências efetivas para reduzir os conflitos ou demarcar as terras. Diante dessa situação, ganhou espaço na imprensa uma carta assinada por indígenas da comunidade de Pyelito Kue que pede à Justiça para decretar a “morte coletiva” da população em vez da expulsá-los de seu território tradicional. O documento não fala em suicídio coletivo, mas em morte conjunta, o que, no contexto em que vivem, significa dizer que preferem morrer todos juntos nesse território a ter de abandoná-lo.

Olhar para o caso de Dourados significa olhar para o Brasil, uma vez que problemas que remete à ocupação do território nacional ganham ainda mais força com a construção das usinas hidrelétricas no País. É ingênuo pensar que o desejo político de fazendeiros, grupos ligados ao agronegócio e empresários não colidirá com a vontade de tribos e populações ribeirinhas de permanecer em um lugar que lhes pertencem por direito. Em tempos em que cada um pode escolher aonde vive – em condomínios planejados e com o mais alto luxo – não parece justo dar a essas pessoas a dignidade de permanecer onde sempre estiveram?

Movimento que começou nas redes sociais ganha as ruas de São Paulo
Movimento que começou nas redes sociais ganha as ruas de São Paulo

Essa é a reivindicação dos Guaranis-Kaiowás: que todos os seus territórios sejam demarcados urgentemente. Essa será a reivindicação de milhares de tribos que estão às margens do rio Xingu, em Altamira (PA). Com a construção da hidrelétrica de Belo Monte, cerca de 80 outras usinas poderão ser construídas na região Norte do Brasil, “solucionado” o problema da produção de energia – como argumentam alguns – e agravando o genocídio de índios e ribeirinhos. A demarcação de terras é um problema que já persiste no Brasil há mais de 20 anos. E a ele outras questões como a violência, a favelização e a prostituição estão atreladas.

Diante de uma enxurrada de análises e reflexões sobre o Brasil que cresceu e que finalmente ganhou notoriedade diante dos olhos internacionais, é preciso ter cautela para não deixar que problemas estruturais e seculares caiam no esquecimento ou fiquem às sombras de um discurso desenvolvimentista. Somos todos Guaranis-Kaiowás, somos todos brasileiros.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: