*Diante da dor dos outros: Victor Deepman

Por um Belém ou por uma sociedade melhor?
Por um Belém ou por uma sociedade melhor e mais justa?

Assisti o início da morte do estudante Victor Deepman, 19 anos, da janela da minha sala. Voltava de um curso, por volta das 22h30, na noite de terça-feira 9. Antes de cruzar a rua já avistava a calçada iluminada. Uma luz vermelha. Mais alguns passos e cruzo a esquina. Guardando o equipamento de filmagem, um cinegrafista de uma das três emissoras de tevê que cercavam a rua informou o motivo do burburinho. “Um estudante foi baleado na porta do prédio”, disse reticente. “Baleado aqui? Ele se salvou?”, questionei. “Não se sabe, foi levado para o hospital”. Atravessei a rua e devo ter cruzado com mais alguns jornalistas de plantão ali em uma das esquinas do Belenzinho.

Do décimo andar, era possível avistar os três carros e as quatro motos da polícia que duas horas depois do ocorrido, não tinham se movido do lugar. Amanheceu. Era quarta-feira, e a notícia veio rápido: “Estudante morre baleado em tentativa de assalto na zona Leste de São Paulo”. Fiquei em choque. Passei a semana tentando sentir um pouco que fosse a dor daquela família. Quando mergulhava um pouco mais  em meus pensamentos, vinha o nó na garganta e os olhos se enchiam de lágrima. Não tive forças para reviver aquele drama tantas vezes quanto minha própria memória insistia.

O prédio branco com detalhes em verde e marrom não é mais o mesmo. Passo por ali procurando as machas de sangue tão visíveis e escuras quanto na terça a noite. Era meu vizinho. E imediatamente fui tomada pela amarga sensação de proximidade. “Poderia ter acontecido comigo. Poderia ter acontecido com meu namorado. Poderia ter sido com alguém da minha família. Exatamente ali – naquele caminho que guarda tantos passos meus.”

Não imaginei que o caso tomaria proporções nacionais. Muito menos que suscitaria o velho debate sobre maioridade penal. Afinal, morrem dezenas de jovens estudantes em Artur Alvim, também zona Leste de São Paulo. Das bocas de moradores injuriados da rua Herval, o caso foi parar no inflamado discurso do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin e, por fim, chegou até o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Como jornalista é sempre pressionado a ter “aquela velha opinião formada sobre tudo” resolvi me dar carta branca no assunto e adotar o modesto “não tenho opinião sobre isso ainda”. Durou algumas horas.

Bate boca com o chefe. Leitura atenta nas redes sociais. Almoços polêmicos na redação. Discurso inflamado na hora do jantar. E um pensamento que migrava aos poucos do lado emocional para o lado racional. Ouvi dizer que em casos de assassinato, em vez de uma, ocorrem duas mortes. De um lado, a pessoa que é brutalmente agredida e morta. De outro o jovem que cometeu o ato. Naquele momento, ambas as famílias tornam-se vítimas da violência e da falência de um sistema de segurança público que condena toda uma sociedade. Pobre e ricos. Brancos e negros. Jovens e velhos.

Minha solidariedade com a dor da família Deepman continua. O sofrimento dos pais e amigos de Victor são mais do que legítimos. A revolta, os protestos, a indignação. Mas, por favor, não sejamos simplistas. A questão é muito mais complexa. Acontece em Parelheiros, M’boi Mirim, Complexo do Alemão e outros tantos morros do Rio de Janeiro e de todo o País. O que existe de diferente no caso de Victor Deepman é um oportunismo quase cego – da imprensa, das autoridades e dos políticos. E por que não dizer da sociedade? Sim, essa mesma sociedade revoltada com a morte do estudante do Belenzinho deveria ser igualmente convocada a parar a Avenida Paulista cada vez que um adolescente de Corinthians Itaquera é atingido por uma bala perdida.

O motivo de revolta é diante de um caso ou deveria ser em relação a todo o sistema? Adotar uma linha de discurso minimalista e desejar vingança diante do opressor é até certo ponto intuitivo. Não fiquemos, porém, com nossas mentes estagnadas. A mesma sociedade que quer marchar em solidariedade a Victor poderia compreender melhor que o nível de desigualdade e de exclusão social, na maioria das vezes, é determinante na vida das pessoas de baixa renda. E como não se trata de uma simples defesa de pobres e marginalizados, é importante lembrar que família de alto poder aquisitivo são igualmente responsáveis pelo abandono de seus filhos. São jovens largados a própria sorte – ou azar.

Fui assaltada, senti raiva. Tudo o que penso hoje, naquele momento caiu por terra. Chorei pelo assalto e chorei por um mundo de ideologias que ruia diante de mim. Quando o desespero passou, novamente questionei a visão maniqueísta de mundo que urge em tomar conta de nós. Hoje, tenho plena convicção de que lutar para mostrar um ponto de vista é uma causa diária. Fazer esse texto foi uma luta entra a pessoa que sente e a jornalista que questiona. Não acredito que a solução para revolver um problema tão profundo quanto estrutural quanto este passe simplesmente pela redução da maioridade penal. Esse ponto é bravamente discutido por todos. Em cinco minutos de conversa temos um ponto final para uma questão tão complexa.

Em vez de espaçados e emotivos, os protestos e mobilizações deveriam ser constantes e profundos. A solução não passa apenas pela questão da maioridade penal. Passa pela política de segurança pública que já não dá conta dos problemas que a sociedade produz. Passa pela política de educação que é constantemente deixada fora da lista de prioridade dos governos. Para pela necessidade de campanhas sociais de conscientização. Passa por uma sociedade menos classista e menos simplista, cujo objetivo pode ser muito maior do que fazer justiça com as próprias mãos.

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Manifestação no Belém, zona Leste, que deveria clamar por muitas outras coisas além de um policiamento ostensivo no bairro
Manifestação no Belém, zona Leste, que deveria clamar por muitas outras coisas além de um policiamento ostensivo no bairro
Momento em que a manifestação para em frente ao prédio de Deepman para fazer orações. É necessário lembrar que não se trata de uma causa religiosa como evocava o padre em seu discurso. Trata-se de uma causa política.
Momento em que a manifestação para em frente ao prédio de Victor Deepman para fazer orações. É necessário lembrar que não se trata de uma causa religiosa como evocava o padre em seu discurso. Trata-se de uma causa política.
População do bairro do Belém em protesto pela morte do estudante Victor Deepman
População do bairro do Belém em protesto pela morte do estudante Victor Deepman

* O título desse artigo faz alusão à obra de Susan Sontag. O livro “Diante da Dor dos Outros” aborda até que ponto os veículos de comunicação respeitam ou não a dor alheia ao registrar cenas de horror em guerras.

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2 comentários em “*Diante da dor dos outros: Victor Deepman

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  1. Minha mais profunda convicção (testada, aliás, a cada bisbilhotada no noticiário) é que existem, sim, leis razoáveis no Brasil, mas também existe a impunidade, e é isso que beneficia a prática do crime. De que adianta uma legislação que preveja pena de morte até para um bebê de dois anos se não houver um combate à cultura da impunidade? Mudaria alguma coisa ou serviria apenas como um agradinho para “ganhar pontos” com a opinião pública? Por algum absurdo que já está tão cristalizado, os piores criminosos ou não vão para a cadeia ou têm uma espécie de “prisão dourada”. Este é o ponto, e não há comoção que dê conta desse problema. Por isso, se o jovem que matou o estudante for realmente julgado e sentenciado no rigor da lei, já basta. Não é preciso barbarizar ainda mais a situação. E é por isso, também, que nós precisamos mesmo travar a luta “entra a pessoa que sente e a jornalista que questiona” — no mínimo, para ter frieza e bom senso antes de abraçar as opiniões mais conservadoras e fascistas.

  2. Concordo plenamente com a jornalista. O Brasil sofre de inúmeros problemas conjunturais (desigualdade social, insuficiência e ma qualidade do ensino publico e gratuito, sistema de saúde publica deficiente etc) que são a origem desta situação de violência em que vivemos hoje e que devem ser motivo de protestos. Mas, no momento vivemos em um estado de terror. Não é justo que cidadãos honestos tenham que viver atrás de grades para tentarem se proteger e que saiam de casa apenas para o estremo necessário e com com medo, por causa bandidos que estão a solta. Precisamos que se combata a violência com urgência. O problema é que o que falta não são leis, nem policiais. Se o assassino de Victor Deepman fosse maior de idade também ficaria em liberdade, como muitos outros assassinos já condenados que passeiam pelas ruas do pais. Isto ocorre por total falência do nosso sistema penitenciário. Precisamos urgente de cadeias, sejam elas publicas ou privadas, para maiores ou menores de idade. Cadeias nas quais os presos tenham que trabalhar e executar tarefas “domesticas” (limpar, lavar roupa, cozinhar), para não terem tempo de ficar bolando melhores maneiras para cometer seus crimes nem para os mais perigosos doutrinarem os pés de chinelo, como ocorre hoje. Acontece que manter um preso custa em torno de 2.500 reais mensais por cabeça, e o estado não quer ter mais despesas, quanto mais com algo que, aparentemente, a população não vê. Precisamos sim de manifestações que exijam de nosso governantes a construção de penitenciarias, pois não adianta “prender” e condenar se não se tem para onde levar o preso, se as penitenciarias hoje existentes estão com sua capacidade há muito extrapolada, algumas com 5 vezes sua capacidade, e se tornaram escolas de aperfeiçoamento para marginais. Todos sabemos que, de dentro dos presídios os “chefes” continuam dando ordens. PELA REFORMA E AMPLIAÇÃO DO SISTEMA PENITENCIÁRIO!

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