Conversa aberta com André Singer

André Singer, cientista político, em debate na Fundação Rosa Luxemburgo
André Singer, cientista político, em debate na Fundação Rosa Luxemburgo

Falar sobre os novos rumos da esquerda no Brasil não é tarefa simples até mesmo para o cientista político e ex-porta voz da Presidência da República, André Singer, que analisou os oito anos do governo Lula no Brasil. Desde que Joseph Stalin assumiu o poder na antiga União Soviétiva em 1924 até o aumento das mobilizações apartidárias nas praças públicas de todo o mundo em 2012, o contexto político mundial vem passando por intensas transformações, que nem sempre podem ser explicadas a olho nu.

Durante encontro na Fundação Rosa Luxemburgo, em São Paulo, Singer criticou o desvio autoritário da esquerda, com a tomada do poder por líderes radicais, ressaltou a importância das marchas, manifestações e movimentos sociais e explicou que para ganhar as eleições, a esquerda teve de aderir ao marketing político. Em meio a um debate repleto de contradições, Singer traça um esboço do chamado novo programa socialista. E desabafa: “ando meio pessimista, mas ainda acredito que o socialismo seja o melhor caminho para a humanidade”. A seguir, confira os trechos da conversa.

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Desvio autoritário
Singer ressalta que “a direita usou muito bem os erros que a esquerda cometeu durante todas essas décadas”. E o principal deles, de acordo com o cientista político, foi a aproximação da tirania. “Temos que aprender certas coisas com o liberalismo”, declara. “Precisamos debater e convencer os companheiros que o novo programa da esquerda passa pela democracia”. Para ele, a tradição antidemocrática da esquerda, que teve início na Revolução Russa, foi muito forte. No Brasil, Singer explica que o Partido Comunista enveredou por um caminho antidemocrático e que, ainda hoje, existem pessoas que acreditam que a transformação ocorrerá por fora da via democrática.

Movimentos apartidários
O cientista político classifica os movimentos apartidários como profundamente democráticos, uma vez que promovem reivindicações espontâneas e graduais. De acordo com ele, existem duas interpretações da esquerda para esses movimentos. Uma delas reconhece a relevância, mas argumenta que os partidos políticos são necessários. “O problema é que os partidos estão passando por uma tremenda crise mundial”, diz. “Não podemos investir em algo que vive uma profunda crise. Eles precisam ser reinventados”, acrescenta. Outra ala da esquerda acredita que é importante firmar uma relação aberta com os movimentos apartidários. “Eles estão levando a crise da democracia para as ruas”, lembra. “É possível que evoluam na formação de uma nova esquerda”, acredita o cientista.

Fragmentação da esquerda
“A esquerda precisa criar um sistema de rede”. Até o começo dos anos 2000, explica Singer, o PT era um partido que unificava os interesses desse grupo. “Hoje, o PT tem uma ala de esquerda, mas é de centro-esquerda. É um partido Lulista”, diz. A mudança de viés do PT gerou uma sensação de dispersão. “Há uma perplexidade. É um momento que as pessoas de esquerda deveriam se organizar em forma de rede para se comunicar”, observa ele. De acordo com Singer, existem pessoas de esquerda em todos os partidos que precisam encontrar um meio para se comunicar e, para isso, precisariam de um sistema em rede.

Marketing político
Questionado se a esquerda está seduzida pelo marketing político, Singer afirma que a “a situação é muito mais grave do que isso”. “A esquerda democrática quer participar das eleições”, afirma. “Ao participar do sistema eleitoral, automaticamente faz uma escolha que esvazia a democracia”, explica. “Nesse ponto, entram os movimentos apartidários, que se recusam a participar desse sistema”. Para Singer, essa é uma das maiores contradições: ao mesmo tempo em que é preciso lutar pela democracia, os partidos de esquerda acabam aderindo ao marketing político. “É como se tivéssemos que trocar a roda com o carro andando”.

Democracia representativa
A democracia direta pode funcionar de forma conjunta a democracia representativa. Entretanto, segundo Singer, é necessário um meio para se transmitir a mensagem. Ele explica que não é possível toda a sociedade participar politicamente em todos os momentos. Os fóruns de discussão na internet, que estimulam a participação social, são alguns exemplos de democracia participativa. “As mudanças não podem ser impostas, precisam ser voluntárias”. Singer acredita que, na prática, as decisões políticas não são consensuais. “Um governo onde a maioria toma as decisões não pode ser considerado de todos”, observa.

Consumo
As massas passaram a ser colonizadas pelo dinheiro. É dessa forma que Singer explica a relação entre a sociedade, os governos e o estímulo ao consumo. “Existe um grande controle da democracia pelo capital”. As medidas de austeridade fiscal nos países da Europa são, segundo ele, um exemplo do controle da democracia pela via econômica. As consequências desse modelo são a ausência do debate político e a propaganda no lugar do esclarecimento público.

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