Coração de bandido bate na sola do pé

Quinta-feira, 12 de julho. Subi o morro de Chapéu Mangueira, no Leme, Rio de Janeiro. A noite, conheci o taxista Adelson, morador do Complexo do Alemão há 32 anos.

Taxista, falante, jovem, carioca e há 32 anos morador do Complexo do Alemão. As ruas da cidades repletas de viaturas de policia da Lei Seca provocam a reação imediata de Adelson: “essa foi a melhor lei que já fizeram, pega todo mundo”. Adelson começa a nos contar como faz para conseguir um dinheiro extra na cidade. “Por causa dessa lei aí, já dirigi até Camaro, maneiro! Já me pagaram 200 reais para eu levar o carro até a Barra”, conta sorrindo. “Foi o melhor carro que já dirigi. Agora, eu tô esperando uma Ferrari”.

Dos carros luxuosos, ele passa então às celebridades. Muitas já passaram pelos bancos do taxista. “Já levei a Vera Fisher, o Gianechini, o Ronaldinho”, revela. “Aliás, o Ronaldinho é feio, hein? Eu sou feio, mais o Ronaldinho é mil vezes pior, mané”. Adelson é desses que pensa rápido e emenda uma frase na outra. “Jogador de futebol é burro, eles pegam essas mulheres bonitas que só querem dinheiro”. O silêncio dura menos de um minuto. “Essa pensão devia mudar. O jogador deveria pagar um bom plano de saúde, uma boa educação para o filho e só.”

“Vocês são da onde?” Sem esperar muito pela resposta, Adelson conta que vive no Alemão há 32 anos. “Vocês conhecem o Alemão ou só aquele mostrado na novela da Globo?”. Para ele, existem dois tipos de moradores de favela: o conivente e o convivente. “A droga continua existindo por lá e chega pelos playboy da zona sul. E, infelizmente, tem muita gente que é conivente com isso”, conta. “Mas quem nasce e cresce no morro dificilmente se envolve com drogas”, explica. “Eu sempre fui convivente”, diz. “Não é fácil crescer lá. Sabe o que é ver gente ser queimada viva cheia de pneu? Já vi mulher bonita, como vocês, ficar carequinha”, conta. “Coração de bandido bate na sola do pé”.

“Aquilo ali é pior do que o Iraque.”

Para Adelson, com a pacificação da comunidade, não tem mais troca de tiro todo dia. “Mas o tráfico de drogas sempre vai existir por lá”, diz. “Aqui, a vida é diferente da de vocês. Resolvo, então, contar que almoçamos no Chapéu Mangueira. “Ah, fica no Leme, né? É da mesma facção que a minha, do Comando Vermelho”. “E o bailes funks, são muito animados”, pergunto. “São sim, uma pista bem grande. Toda a playboyzada vai. Maneirão!”. Chegamos ao hotel. Adelson se despede, afinal, sua jornada termina só as 6 horas da manhã. “Pô, da próxima vez, vem conhecer o Alemão”.

Morro Chapéu Mangueira, Leme

O almoço tinha um quê de turístico. Afinal, éramos mais ou menos 20 jornalistas curiosos para subir o morro do Chapéu da Mangueira em busca do Bar do David. O motor do taxi roncava mais alto na hora que deixava a orla da praia e começava a subir as lareiras íngremes. Da janela de trás, meus olhos passeavam pelos fios e sobrados que, amontoados uns aos outros, davam mais movimento a uma das comunidades pacificadas do Rio de Janeiro. Os primeiro passos, ainda inseguros, procuravam a placa que anunciava o nome do bar. Pelo caminho, via-se policiais fazendo a ronda pelo morro. Sem precisar subir a terceira ladeira, chegamos ao bar do David e ao lado de um grupo de PMs almoçamos no morro.

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