Matamos o jornalismo que queria mudar o mundo

Quantos jornalistas começaram suas carreiras com um desejo intenso de mudar o mundo? Milhares, pressuponho. A maioria sempre buscando as mais diferentes pautas desde a faculdade. Alguma coisa, porém, deu errado no meio do caminho. Há alguns anos, era até consenso que a vida de jornalista não costumava ser fácil. Os cérebros mais inspiradores da profissão ensinaram por meio de reportagens, livros e experiências de vida que a pauta e o tão almejado furo não vinha enlatado no horário do expediente. No meio do caminho a vontade de mudar o mundo morreu. Foram as empresas capitalistas que mataram em nós a sede de sair às ruas para conhecer o novo? Ou então a crise na chamada imprensa tradicional que roubou a esperança?

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A verdade é que quem escolhe ser jornalista coloca-se automaticamente como agente de transformação social, certo? Quem escolhe ser jornalista tem o dever de fiscalizar as instâncias de poder e a missão de jogar luz e transparência sobre os fatos. Errado. E não por se tratar de uma visão romântica dos fatos, ou analisar o jornalismo a partir de uma ótica ingênua. A atividade jornalística sempre foi intrinsecamente ligada às grandes empresas e à publicidade. Os efeitos de um mundo globalizado, sem barreiras e sem fronteiras, impactaram maciçamente sobre os meios de produção. A habilidade na apuração transferiu-se para o poder da agilidade em sites de buscas. E as empresas souberam muito bem tirar vantagem dessa mudança. Quem escolhe ser jornalistas tem um caminho de renúncias pela frente. Afinal, ninguém é verdadeiramente um agente de transformação social sem um esforço mínimo.

Muitos repórteres enfrentam a primeira morte ao se virem obrigados a desistir do “sonho” de trabalhar nas grandes redações. As vagas são limitadas, o trabalho é pesado e o ambiente, muitas vezes, hostil. O funil, em resumo, é estreito. A outra parcela que chega às redações morre prematuramente – aniquilados pelo caráter mercantil e superficial das pautas – ou são tomados por um desejo súbito de reportar um mundo de forma independente, conforme os próprios olhos contam, sem filtros empresariais, sem impedimentos corporativos. A solução estaria, então, na formação de grupos com propostas alternativas e esperar outro fôlego revolucionário como as manifestações em São Paulo, no Rio de Janeiro e em todo o Brasil? Talvez. É cedo para saber como será esse novo jornalismo. Algumas iniciativas surgiram – como a Mídia Ninja, a Mídia Gaysha – mas ninguém consegue responder exatamente sobre a efemeridade desses movimentos. Uma certeza existe: as fórmulas verticais usadas pelos veículos tradicionais caíram por terra frente a um sistema que vive cada vez mais em rede.

charge jornal 02Enquanto nossas sólidas referências se desmancham pelo ar, é preciso se debruçar sobre o futuro. Prestar serviços para uma empresa jornalística não significa aceitar os limites colocados diariamente. É preciso aprender a se equilibrar sobre fios. É preciso abandonar o coletivo e focar no individual, deixando em segundo plano o fato se prestar serviço a uma empresa e pensar no que realmente tem valor do ponto de vista pessoal. Quais são as boas histórias que precisam ser contadas? Quais são as pautas nas quais ainda acreditamos? Precisamos abandonar o individual e focar no coletivo. A hierarquia de valores não é condescendente. Estar presente em um confortável almoço de fim de semana ou uma manifestação em meio à avenida Paulista? A escolha não é simples, mas onde quer que se esteja, faça-o com vontade.

Independentemente da forma escolhida, do meio pretendido, o jornalismo enfrenta um déficit real de conteúdo externo e interno. Somos jornalistas, mas não questionamos. Somos jornalistas, mas já não observamos. Somos jornalistas, mas não saímos às ruas. Somos jornalistas, mas somos impedidos. Somos jornalistas, mas não militamos. Somos jornalistas e nos resignamos.

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