O que está por trás do preconceito contra os médicos cubanos

Por Fabíola Perez | às 8h23 | 28/08/2013

Eles chegaram para roubar meu emprego. São todos médicos com cara de empregada doméstica. Tem de voltar às senzalas de onde saíram. Como assim vão atuar sem o revalida? Por que o governo não investe em brasileiros? Essas frases expõem as reações assustadoras que tem pipocado sobre a chegada de médicos cubanos ao Brasil. No último fim de semana, desembarcaram no País os primeiros 400 profissionais para atuar nas cidades cadastradas no programa do governo federal “Mais Médicos”. Desde o seu anúncio, a ideia vem provocando um debate que inflamou a classe médica brasileira e alguns setores da sociedade. Por que, afinal, a iniciativa do Ministério da Saúde tem gerado tanta polêmica?

Na terça-feira 27, o tema voltou à tona com mais força depois de um grupo de médicos estrangeiros ter sido alvo de vaias, gritos e provocações de médicos brasileiros. O protesto foi organizado pelo Sindicato dos Médicos do Ceará, que reivindica a validação do diploma dos estrangeiros para trabalhar no País. A cena, estarrecedora, justificou o ditado que diz que uma imagem vale por mil palavras. Antes de vaiar, xingar ou simplesmente pedir o revalida é preciso analisar os diversos ângulos de uma questão muito complexa. O ministro da saúde, Alexandre Padilha, tomou a decisão de lançar o programa com base na falta de profissionais interessados em atuar nas regiões mais longínquas do Brasil. Afinal, quem sai do circuito São Paulo/Rio de Janeiro percebe quantas pessoas sofrem e chegam até a morrer por falta de estrutura, mão de obra qualificada e diagnósticos incorretos. Trata-se de uma realidade absurdamente singular.

Nada justifica a recepção violenta que os médicos cubanos tiveram em Fortaleza, no Ceará
Nada justifica a recepção violenta que os médicos cubanos tiveram em Fortaleza, no Ceará

Diante disso, o governo começou uma campanha por mais médicos – brasileiros e estrangeiros – para suprir uma demanda sem igual na América Latina. No Brasil há apenas 1,8 médicos para cada mil habitantes. Na Argentina, a proporção é de 3,2 e na Inglaterra (para citar países desenvolvidos) é de 2,7. Muita gente não sabe, mas 701 cidades não foram escolhidas por nenhum médico. Surgiu, então, a parceria com a Organização Panamericana de Saúde (Opas), a mais antiga agência de saúde do mundo, para que houvesse uma cooperação entre governos para tentar resolver o problema.

Conseguimos, então, esclarecer e desconstruir alguns argumentos. Sobre como se dará o pagamento desses profissionais: no sistema comunista de Cuba, os médicos são servidores públicos, portanto recebem a remuneração diretamente do Estado. E aqui vale a pena dizer que um país que manda seus profissionais para prestar ajuda a outro, certamente, exigirá algum tipo de contrapartida. Quando o assunto é diplomacia, não existe generosidade. Além disso, o Ministério Público Federal no Distrito Federal se comprometeu a investigar em que condições os médicos estrangeiros vão trabalhar para evitar violações de direitos humanos.

Sabe-se também que a falta de infraestrutura castiga, além dos pacientes, muitos profissionais da saúde que tem que dar conta consultas, procedimentos cirúrgicos e atendimentos emergenciais. Tudo ao mesmo tempo. E sabemos também que faltam hospitais e equipamentos de trabalho – desde luvas até máquinas de raio X ou ressonância magnética. Algumas mudanças, porém, precisam de mais tempo para acontecer. Não se constrói um hospital da noite para o dia, também não se muda o ensino de medicina em cidades carentes em uma semana. Ou seja, uma necessidade não deslegitima a outra e o passo inicial precisava ser dado.

A imagem de um médico cubano negro alvo de vaias, que retomou o debate sobre xenofobia na Brasil
A imagem de um médico cubano negro alvo de vaias, que retomou o debate sobre xenofobia na Brasil

Muitos profissionais que trabalham diariamente em hospitais sem as mínimas condições de funcionamento reconhecem que um maior número de médicos começaria a transformar esse cenário. Exatamente por isso causa tanta vergonha ver estampada em todos os jornais brasileiros a foto de um médico cubano negro hostilizado em Fortaleza. Os brasileiros que sempre demonstraram indignação com a xenofobia contra latino-americanos em países europeus agora se reúne para vaiar colegas de profissão de um país vizinho? Na Europa, o medo de roubar vagas no mercado de trabalho vem da crise financeira intensa que aumenta os índices de xenofobia no país. E aqui? Existe alguma razão que explique verdadeiramente o medo de que estrangeiros roubem postos de trabalho nos rincões do País?

Independentemente de interesses políticos enraizados na iniciativa do governo, esses profissionais são necessários à saúde brasileira. Ainda que como uma medida paliativa. Ninguém é contra a construção de novos hospitais. Ninguém, em sã consciência, discorda da necessidade de se investir em saneamento básico em regiões pobres. Daí a hostilizar profissionais da saúde que ficarão no Brasil por tempo determinado para tentar produzir algum efeito reverso é um longo caminho.

É um debate que precisa ultrapassar os limites classistas, de uma categoria em que alguns se sentem desprestigiados ou ameaçados pela figura do estrangeiro. Os médicos cubanos passarão por um exame após o curso de formação, que não é o revalida, já que prestarão apenas o atendimento ambulatorial. Não há, porém, motivo para pânico. Eles vão voltar para seus postos de trabalho em Cuba, como afirmou a vice-ministra da Saúde de Cuba, Marcia Cobas. Enquanto isso, o melhor a fazer é acalmar os ânimos e esperar para ver qual a contribuição que esses profissionais deixarão ao Brasil, sem se deixar contaminar por qualquer tipo de pré-conceito.

*Com informações do site do Ministério da Saúde.

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