De olhos abertos para o assédio sexual

Pesquisa reforça a mensagem de que mulheres têm direito de andar em lugares públicos sem sofrerem intimação
Campanha “Chega de Fiu Fiu” – Pesquisa reforça o direito das mulheres de andar em lugares públicos sem sofrer intimação

Todos os dias atravessamos as ruas do preconceito e trombamos com milhares de casos de assédio sexual. Uma pesquisa realizada pelo site Olga, parte de uma campanha intitulada “Chega de Fiu Fiu”, ouviu 7762 mil mulheres e delas, 99,6% confirmaram que já foram vítimas do assédio sexual em lugares públicos. O levantamento esmiúça as abordagens mais corriqueiras, a reação das mulheres que passaram por isso e até as cantadas mais comuns nas ruas e nos ambientes de trabalho. O mais assustador, porém, é o teor dos depoimentos registrados. Na maioria dos casos, a vítima está caminhando pelas ruas quando é abordada – ou por uma frase de incitação sexual ou por algum ato que invade o corpo feminino e transtorna a mente da vítima. Mas o pano de fundo que se constrói sob essas informações, infelizmente, é muito maior.

pesquisachegadefiufiuVez ou outra, dizem que hoje a situação mudou. “As coisas estão melhores e não existe mais tanto preconceito”. Como se a diversidade de canais disponíveis para denunciar levasse necessariamente ao aumento no número de vítimas que registra uma queixa. Pelo contrário. Quantas pessoas já denunciaram um chefe ou colega de trabalho por ter sofrido assédio sexual? Quantas mulheres toleram por anos companheiros que ao menor sinal de discordância partem para a violência física? Embora sejam situações diferentes, ambas requerem certo grau de coragem da vítima para transformar a queixa verbal em uma denúncia registrada. Apesar de o assédio ser considerado crime no Brasil desde 2001, há um alto índice de impunidade, já que – de acordo com advogados especialistas – muitas mulheres ficam constrangidas, com receio de eventuais consequências, e acabam pedindo demissão.

O assédio é lamentavelmente a ponta de um iceberg de um problema cultural. Algumas situações eclodem todos os dias a nossa volta sem que tomemos consciência da amplitude do problema. As mulheres são culturalmente treinadas e educadas para se comportarem como seres sensuais. Além de serem submetidas à alcunha de “sexo frágil”, são o público alvo preferido de canais que estimulam a sexualidade – que por vezes adquire ares exacerbados. Um grupo de amigas que vai a uma balada com saias curtas, por exemplo, é vítima da indústria da beleza que prega que para ser atraente, é preciso exibir o corpo. Uma coisa, então, leva à outra. Essa é a típica ocasião em que notamos posicionamentos machistas entre as próprias mulheres. “Ah, o que você fez para ele te agarrar?” ou “Também, com essa roupa ela estava pedindo pra ser abusada”. Da roupa ao ato, o preconceito e o machismo imperam.

OPRESSÃO - Um grupo de amigas que vai a uma balada com saias curtas, por exemplo, são vítimas da indústria da beleza machista que prega que para ser atraente, é preciso exibir o corpo
OPRESSÃO – Um grupo de amigas que vai a uma balada com saias curtas, por exemplo, é vítima da indústria da beleza machista que prega que para ser atraente, é preciso exibir o corpo

Outro exemplo. Algumas mulheres sentem-se felizes e honradas por receber flores no ambiente de trabalho no dia das mulheres. Qual o mal em ser lembrada de vez em quando? Não podemos esquecer que, muito possivelmente, a cúpula da empresa em que a mesma mulher das flores trabalha deve contar com uma equipe de homens e mulheres, em que elas trabalham em igual medida com salários inferiores. Os cargos de chefia? A minoria que chega lá tem de colocar a feminilidade de lado, descer do salto alto e engrossar o discurso, caso contrário, entende-se que não sabem comandar. De acordo com a pesquisa do site Olga, mais de 1.660 mulheres entrevistadas já recebeu cantadas indiretas de um colega do trabalho. No âmbito pessoal, a repressão fala alto. Meninas são treinadas para agir como princesas à espera de um príncipe encantado, mas se desiludem quando são abusadas contra a vontade por esse mesmo príncipe na balada. Meninas são treinadas para tampar os ouvidos em uma roda de homens. As piadas são sujas demais e falar de sexo é ainda é coisa vulgar entre mulheres.

É quase inadmissível uma mulher cobrindo o rosto com véu para os padrões ocidentais, mas ter de desviar o caminho para evitar o assédio é comum. Passaram-se mais de 50 anos depois do surgimento da pílula anticoncepcional, a maior revolução feminina, mas o medo ainda predomina. É duro saber que mesmo depois de um longo caminho percorrido, ainda somos surpreendidas pelas ruas com uma inconveniente cantada – aquela que poderia ter se tornado facilmente um ato de violência consumado.

INDONÉSIA - Em diversos lugares do mundo, a política de segregação de gênero ainda é uma prática recorrente
INDONÉSIA – Em diversos lugares do mundo, a política de segregação de gênero ainda é uma prática recorrente

* Vamos ajudar a romper o pacto contra o silêncio

Para denunciar:

Central de Atendimento à Mulher (Secretaria Nacional de Política para Mulheres) – 180

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