A teoria e a prática de Marina Silva

Fabíola Perez | Publicado às 12h45

"A ideia de um novo sujeito político, que não quer mais ser expectador da política e sim protagonista, acontece independente do momento eleitoral."
“A ideia de um novo sujeito político, que não quer mais ser espectador da política e sim protagonista, acontece independentemente do momento eleitoral.”

Fomos enganados mais uma vez. Com muito menos alarde do que um escândalo de desvio de dinheiro público e menos impacto do que as manifestações do último mês de junho, assistimos a uma liderança política – que inflou o discurso do diferente, do inovador – se curvar diante do pragmatismo da velha política. Marina Silva, ex-PT, ex-PV, e atualmente candidata à vice-presidência da República pela mesma legenda de Eduardo Campos, o PSB, alimentou os sonhos de quem acreditava em uma via alternativa para o sistema político atual. Quem acompanhou a disputa de 2010 deve se lembrar de uma candidata que teve o mérito de empunhar a bandeira ambientalista antes de o tema ganhar vez na campanha de adversários e de reconquistar a atenção de eleitores descrentes da política institucional.

Ao mesmo tempo em que lutava para disseminar suas idéias programáticas, Marina escorregava ao tentar mostrar imparcialidade em temas polêmicos como direito ao aborto, legalização do uso da maconha e casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ela defendia, por exemplo, que o direito ao aborto fosse votado em plebiscito. Uma ideia que, em princípio, parece democrática. O que muita gente não percebia, no entanto, era que de nada valeria um plebiscito sem informações que munissem a população brasileira antes de dar seu voto. As urnas captariam apenas os anseios de uma sociedade majoritariamente conservadora. Exatamente esse conservadorismo que fez minguar a fé dos setores mais progressistas na candidata que aparentemente representava o “novo” na política brasileira.

Apesar disso, em 2010, as contradições não se mostraram tão evidentes – ou pelo menos não chamaram tanta atenção diante de uma sociedade enfadada com as opções que se apresentavam naquela disputa. A ânsia pela mudança se relevou nas urnas: o resultado de 19,6 milhões de votos deu à Marina um poder único e despertou em seus adversários um interesse particular para 2014. Renegando a velha estrutura da política institucional, a ex-senadora preferiu, então, seguir carreira solo. Articulou lideranças da esfera institucional e civil para ajuda-la a criar a Rede. Em nenhum momento, Marina admitia a ideia de estar criando um novo partido político. Nada mais apropriado para quem desejou tanto se descolar das velhas estruturas.

A contradição maior veio meses depois, quando Marina decidiu registrar a Rede Sustentabilidade no Tribunal Superior Eleitoral. Rejeitado o pedido de registro, a dona dos 20 milhões de votos precisou de pouco mais de 24 horas para declarar aceito o convite de Eduardo Campos (PSB) para concorrer à vice-presidência. A questão é: pelo novo fazer político que Marina defendia ela não precisava necessariamente estar filiada a um partido político tradicional. Crítica ferrenha das “estruturas estagnadas”, ela foi contra todo o discurso que adotou nos últimos meses para emprestar seu respaldo a um partido político que disputará eleições. Vale lembrar que logo após o fim da última disputa presidencial, Marina se desligou do PV porque, segundo ela, houve “dificuldade em oxigenar o partido com os núcleos vivos da sociedade”. Resta saber se as mesmas dificuldades também não serão encontradas no PSB mais tempo, menos tempo.

Marina decepcionou quem acreditou no jeito inovador de fazer política e mostrou a que veio. Concorrer a cargos públicos é totalmente legítimo, mas nutrir um discurso totalmente divergente de interesses práticos é enganar eleitores e subestimar a inteligência da opinião pública. Marina Silva deveria ter encontrado um ponto de equilíbrio mais sutil entre teoria e prática: não ter rejeitado completamente as instituições tradicionais ou continuar seu ativismo independentemente de interesses eleitorais.

Para ler trechos da entrevista exclusiva com Marina Silva clique aqui.

“Não vou ficar na cadeira cativa à presidência da República”

Marina: "se for para a política continuar relevante, não tenho nenhum problema em não estar na política institucional"
Marina: “se for para a política continuar relevante, não tenho nenhum problema em não estar na política institucional”
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: