Porque ninguém merece ser estuprado ou…

… Sobre a luta diária por nossos direitos

Campanha #EuNãoMereçoSerEstuprada mobiliza pessoas contra a violação do direito das mulheres
Campanha #EuNãoMereçoSerEstuprada mobiliza pessoas contra a violação do direito das mulheres

A pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada que revelou que 65% acreditam que mulheres que usam roupas curtas merecem ser estupradas colocou na ponta do iceberg o machismo nosso de cada dia. Embora o Brasil seja conhecido por ser um dos países mais machistas do mundo, o levantamento ainda surpreende por alguns motivos. Em um mundo em que mulheres e homens assumem cada vez mais os mesmos postos de trabalho, é importante lembrar que elas continuam ganhando um salário inferior. Além disso, vivemos em um mundo em que o caráter é, de fato, definido pelas roupas que usamos. Afinal, quem de nós se sente livre para desfilar com as pernas à mostra em um ambiente corporativo? Infelizmente, até hoje, qualquer uma que se arrisque dentro de um vestido torna-se invariavelmente alvo de olhares e comentários masculinos.

Em outro texto publicado nesse blog mencionei que é a mesma cultura machista que prega que para uma garota se sentir sensual ela necessita obrigatoriamente usar roupas que deixem suas curvas à luz do olhar masculino. Daí vem a sublime ironia: cada vez mais cedo mulheres e meninas aprendem que precisam exibir seus corpos a qualquer custo, ao mesmo tempo em que são duramente julgadas por isso. A mesma sociedade que incentiva e coloca a mulher como objeto de desejo sexual expõe seu juízo de valor errôneo diante de qualquer situação. A culpa da violência praticada parece ser sempre das mulheres que provocam, abusam e despertam os mais primitivos desejos no imaginário masculino. Afinal, não vivemos em uma sociedade com regras e convenções sociais que impõe normas e regras mínimas de respeito aos homens. Vivemos em uma sociedade amplamente desigual e injusta.

O debate foi provocado logo após a avalanche de notícias sobre episódios de abuso sexual no metrô de São Paulo. Há muitos anos uso a linha 3 Vermelha e diariamente acompanho o constrangimento de algumas mulheres no sufoco que é utilizar o transporte público em horário de pico. Se observarmos os fatos com um olhar um pouco mais aguçado, veremos a reprodução de uma sociedade sexista também no transporte público. Trata-se de um ambiente extremamente favorável ao assédio. A grande maioria dos funcionários do metrô são homens, o que coloca uma barreira natural no momento de se fazer uma denúncia. As mulheres precisam saber que serão ouvidas, que serão compreendidas e não rejeitadas, julgadas e expostas ao revelar uma violação. As tevês que distraem passageiros durante a viagem com notícias do dia e resumos de novelas poderiam transmitir campanhas educativas, para que quando alguém presenciasse uma cena de assédio sexual no transporte público soubesse como ajudar a vítima.

Por fim, acredito ainda que nesse momento que a própria polícia do metrô afirmou estar investigando redes e grupos de “encoxadores” deveria ser aberto um espaço às ONGs feministas para uma campanha de conscientização presencial nos vagões do metrô. Passou da hora de fazermos alguma coisa. Já vi campanhas contra a violência doméstica, vejo placas pedindo respeito aos direitos humanos, mas ainda não vi nenhuma iniciativa que ajude a nós, passageiras, que todos os dias enfrentamos o desafio de utilizar de forma segura e plena o metrô de São Paulo.

É lamentável pensar que ainda precisamos recorrer às roupas e acessórios que usamos para demonstrar alguma forma de caráter. Hoje mesmo vi uma notícia de que 86,5% dos homens sauditas acreditam que o fato de as mulheres abusarem do rímel é uma das causas do aumento de casos de assédio sexual em locais públicos na Arábia Saudita. Qual a distância entre brasileiros e sauditas? Nenhuma. Os 65% que afirmaram que mulheres que usam roupas curtas merecem ser estupradas estão justificando e legitimando um dos piores tipos de crime da humanidade. O resultado estarrecedor serviu ao menos para mobilizar uma parte da população – inserida nos 35% contrários à conclusão da pesquisa – a lançar a campanha #eunãomereçoserestuprada, que vem conquistando mais adeptos a cada dia.

Pior ainda é saber que há um índice muito significativo de mulheres que respondeu à pesquisa com um olhar repleto de preconceito. É impressionante ver a quantidade de comentários de mulheres creditando a violência e o desrespeito masculino a uma suposta “vulgaridade” feminina, esquecendo-se de outros tantos fatores. Vivemos em uma sociedade que aprendeu a aceitar que os homens podem ter desejos insaciáveis a qualquer momento e que esses desejos lhes dão carta branca para qualquer ação, inclusive para um estupro. É mais do que hora de pensar onde queremos chegar? Que tipo de gerações estamos formando ao julgar pelas aparências, sermos condescendentes à violência de gênero e abaixarmos a cabeça para uma realidade tão cruel? Aceitar com resignação, até quando?

 

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