Ainda falaremos sobre racismo amanhã?

Somos todos humanos: porque o racismo do presente pode ser ainda pior que o preconceito do passado
Somos todos humanos: porque o racismo do presente pode ser ainda pior que o preconceito do passado

É bom aproveitar a onda de comentários sobre racismo que veio à tona a partir da reação do jogador do Barcelona, o brasileiro Daniel Alves, quando um torcedor atirou-lhe uma banana em campo. Muito já se falou sobre o assunto durante a semana, mas a pergunta que não quer calar é: quando a poeira baixar ainda haverá pessoas empunhando bananas e aglomerando hastags nas redes sociais contra o racismo? Difícil prever, mas o fato é que essa não é a primeira vez que um ato racista vem a público no Brasil. O racismo é uma prática diária entre brasileiros, dentro ou fora dos campos. E está na hora de fazer alguma coisa além de publicar fotos portando bananas. Mas fazer exatamente o que?

Inegável. A reação de Daniel Alves conquistou o público ao tratar com desprezo e ironia o racismo que se mostra cada vez mais frequente entre jogadores de futebol. O problema, porém, é que infelizmente muitos jovens negros sofrem na pele um preconceito avassalador, que os impede de estudar em escolas particulares, de serem olhados com igualdade em universidades e, sobretudo, de serem merecedores de respeito ao caminhar pelas ruas. Recentemente, terminei de ler o livro “12 Anos de Escravidão”. A obra como um todo nos faz sentir vergonha da humanidade. Mas o que provoca um verdadeiro nó no peito é saber que a história pode ser facilmente adaptada ao contexto de hoje. Já não é preciso abrir os jornais ou ligar a televisão para vermos notícias trágicas envolvendo a população negra. As redes sociais escancaram essa realidade: negros amarrados em postes, negras arrastadas cruelmente por carros de polícia, negros levados à força para a morte.

Esse é o País em que predomina o conceito de democracia racial. É também o País da superficialidade, onde muita gente, sem saber direito o porquê, não tardou em fazer um selfie com o celular, a banana e a hastag “somos todos macacos”. Quantas dessas pessoas pensaram de fato sobre o que estavam fazendo?

Esse texto pode ser um convite à reflexão sobre o racismo, mas pode ser também um convite à reflexão sobre um mundo onde se é obrigado a dar opinião sobre tudo. Somos constantemente forçados a opinar. Com isso, não sobra tempo para buscar uma simples informação antes de sair compartilhando qualquer coisa. Afinal, por que uma campanha cujo lema utiliza a ideia de que somos descendentes dos macacos não deve ser vista com bons olhos? A ideia de comparar humanos a macacos remete aos tempos higienistas do Nazismo e aos pensamentos evolucionistas europeus que tendiam a acreditam que europeus eram uma raça evoluída, enquanto africanos e indígenas eram seres inferiores – portanto descendentes diretos dos macacos.

Essa ideia fez milhares de negros tornarem-se vítimas de acoitamentos e colocou tantos outros à mercê de chibatadas em pelourinhos. Muitos eram obrigados a acreditar que, de fato, estavam condenados à escravidão. Esse foi o pensamento que coroou feridas abertas em corpos negros que gritavam de dor na América e na África. Por isso, é preciso mais do que uma reação que ironize o preconceito. É preciso lutar contra ele todos os dias. Debater e mostrar com provas histórias sobre o quanto estamos condenados ao retrocesso caso o racismo continue a existir. Há menos de três anos, o Brasil era o País do preconceito velado. Lugar em que as pessoas disfarçavam bem quando não admitiam negros por perto. Hoje a segregação e o ódio se descortinaram.

A dívida que temos com nosso passado escravagista é imensurável. Mas as consequências do que pensamos e colocamos em prática hoje podem ser ainda piores.  É preciso agir, compartilhar, divulgar. E não vender camisetas. Aproveitar muito bem momentos como esse – em que pessoas que talvez nunca tenham parado para pensar sobre determinado assunto – para estimular a busca pelo saber. É hora de descobrir como o racismo mostra suas faces mais sombrias muito além dos holofotes dos campos de futebol.

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