Repressão preventiva

Manifestação contra a Copa do Mundo na zona Leste, São Paulo
Manifestação contra a Copa do Mundo na zona Leste, São Paulo

Quinta-feira, 12 de junho. Dia em que muitos brasileiros se preparavam para vestir a camisa verde e amarela e assistir a abertura da Copa do Mundo no Brasil. Nesse mesmo dia, porém, outro fato além das festividades marcaria o dia. Como a presidente Dilma Rousseff havia prometido um dia antes em cadeia nacional, dali em diante nenhuma voz contrária ao evento da Fifa seria tolerada. Assim ocorreu. Um ano após as manifestações populares de junho de 2013 que reconduziram o país à democracia, a repressão policial se fez mais presente e forte do que nunca. A mando do governo do Estado de São Paulo, a polícia foi às ruas com ordens de não tolerar nenhum indício de protesto popular.

Às 9h30 quem precisasse andar de metrô teria o trajeto fatalmente interrompido na estação Carrão da Linha 3 Vermelha. Em frente à catraca, centenas de policiais aguardavam os usuários para uma revista nas roupas e nas mochilas antes mesmo de sair da estação. Entretanto, nem todos eram revistados. Uma parada rápida permitiu observar que os policiais barravam apenas homens, com mochilas nas costas. A passarela que dava acesso ao bairro do Tatuapé e Carrão estava cercada por policiais – que mais tarde bloqueariam por completo a saída para as ruas que levam à avenida Alcântara Machado, Radial Leste.

Às 10 horas, manifestantes se reúnem  para protestar contra a Copa do Mundo
Às 10 horas, manifestantes se reúnem para protestar contra a Copa do Mundo

Todo o movimento em torno da pacata estação Carrão podia ser explicado. O coletivo Domínio Público organizara uma passeata nas redondezas para chamar a atenção daqueles que estavam a caminho da Arena Corinthians, sede da abertura do Mundial, para os abusos e gastos em função do evento. “Uma empresa multinacional que veio ao Brasil e fez uma série de exigências e intervenções”, diz Felipe Gonçalves, 29 anos. Às 10h, alguns manifestantes estavam no local e um grupo maior de profissionais da imprensa nacional e internacional registrava as primeiras imagens. Uma faixa vermelha com dizeres “Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa” foi erguida sob o sol das primeiras horas da manhã. Às 10h10, veio a primeira bomba de gás lacrimogêneo. Uma, duas, três bombas lançadas seguidamente pela policia e pelo Choque iniciaram o tumulto.

Os cerca de 400 manifestantes e profissionais de imprensa começaram a correr pelas ruas adjacentes: Itapura, Apucarana e Tijuco Preto. Na corrida, uma jornalista identificada por um crachá e um capacete tombou ao meu lado. Minutos depois, foi noticiado pelos portais que duas jornalistas da CNN e um cinegrafista do SBT ficaram feridos durante a manifestação. “Esse ato foi marcado por policiais jogando bombas e balas de borracha ainda durante a concentração”, diz o manifestante Igor Tanaka, 24 anos, membro do Coletivo Domínio Público. “A polícia foi violenta desde o começo”.

O objetivo claro da polícia naquele momento era dispersar os manifestantes que entoavam cantos pedindo direitos humanos durante Mundial. Era impossível fazer qualquer tipo de cobertura jornalística na região graças a repressão. Havia carros de polícia e cavaletes da CET (Companhia de Engenharia de Tráfico) cercando todas as ruas. Carros e pessoas não conseguiam chegar à rua Serra do Japi. Um viaduto próximo à estação Carrão abrigava cerca de 40 carros da polícia. A truculência preventiva, que tentava impedir os manifestantes de interromper a Radial, resultou em um dos embates mais violentos entre manifestantes e policiais.

Polícia Militar e Tropa de Choque tentam impedir o acesso dos manifestantes à Radial Leste
Polícia Militar e Tropa de Choque tentam impedir o acesso dos manifestantes à Radial Leste

A violência utilizada contra os manifestantes ganhou visibilidade, inclusive, nos veículos internacionais. “A ideia é protestar contra os abusos da Fifa, os 11 bilhões gastos pelo governo com a construção de estádios, a remoção das pessoas em torno das obras, as condições precárias de trabalho e a exploração sexual”, diz Tanaka. A Polícia Militar de São Paulo afirmou que “agiu para impedir que baderneiros fechassem o acesso à avenida Radial Leste, o que afetaria o direito de ir e vir de milhares de pessoas, inclusive aquelas que iriam assistir a abertura da Copa”. Não fosse o bastante, algumas estações da Linha 3 Vermelha contavam com a presença de militares do Exército portando fuzis.

A tática Black Block entrou em ação somente após as bombas serem lançadas pela polícia. Ainda assim, era desproporcional o número de policias espalhados pela região para conter a movimentação. O clima de medo e tensão aumentava a cada bomba ou bala de borracha lançada, criando um mundo paralelo e de certa forma invisível aos que comemoravam a chegada a Copa do Mundo. O que parece não ter ficado claro, no entanto, é que todos os grupos têm o direito de protestar. Ainda que o País viva um clima de festa e descontração é necessário haver uma voz dissonante sempre. O perigo é quando essa voz passa a ser sufocada, uma vez que é legítima em qualquer regime democrático.

Vista da estação Carrão do Metrô com policiamento ostensivo para impedir a manifestação de 12 de junho
Estação Carrão do Metrô com policiamento ostensivo para impedir a manifestação de 12 de junho

Pensa-se em combater protestos e manifestações, mas a violência policial não é combatida da mesma forma. Argumentos do tipo “os vândalos tem de ser punidos” ou “eles não podem sair quebrando tudo” são usados com frequência. Poucos vêem e admitem quando a polícia é a primeira a atirar, como ocorreu no último dia 12. Um ano se passou após o início das manifestações de junho passado e, apesar de muito ter acontecido, nada mudou no modelo de policiamento existente. Ainda temos uma polícia que ataca preventivamente, capaz de instaurar a desordem e espalhar o medo. Exatamente por isso, é preciso olhar além dos estádios e não deixar cair no esquecimento assuntos tão relevantes como a desmilitarização da polícia, a repressão policial e o legítimo direito de se manifestar.

 

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