Até onde vai a indignação contra a corrupção?

A manifestação do último domingo 13 contra a corrupção e a favor do impeachment da presidente Dilma, que ocorreu em São Paulo e em outras cidades, levantou uma avalanche de questionamentos e inquietações. Muitas delas só terão suas respostas com o necessário distanciamento histórico dos fatos. Entretanto, a massa de brasileiros que caminhou pela Avenida Paulista expôs algo além da divisão de classes e da polarização. Uma leva quantitativamente relevante poderia significar algum tipo de conscientização política? O que poderíamos depurar desse movimento? Engana-se quem acredita que as manifestações retratam necessariamente um passo adiante rumo à caminhada democrática.

Manifestação Paulista

O objetivo dessa reflexão não é atentar para as contradições do ato convocado no domingo. Tampouco limitar os manifestantes a um grupo homogêneo. A ideia é chamar atenção para outros pontos importantes. O primeiro deles: até onde vai a luta contra a corrupção? Muitos dos que estavam nas ruas para protestar não tinham informações básicas sobre o funcionamento do sistema político. Sim, entender a política institucional tornou-se desinteressante no Brasil. Afinal, todos os partidos estão manchados por desvios éticos e não se fazem merecedores da confiança dos governados. Se a insatisfação atingiu níveis estratosféricos, poderíamos começar a discutir novos caminhos, como a democracia participativa, por exemplo. Mas o ponto é: não há conhecimento para esse debate mais profundo. E o problema vem de baixo. Falta formação política nas escolas. Sem o conhecimento básico, o debate fica nas camadas superficiais. E, portanto, esvaziadas de racionalidade – facilmente cooptadas.

Outro aspecto que se sobressaiu nos protestos foi o pífio desempenho da economia. Ora, e uma vez acertados os ponteiros econômicos, inflação, desemprego, renda e consumo, o interesse político se perderia? Ao que tudo indica, sim. É legítimo sair às ruas quando os preços sobem, o salário já não é mais o mesmo e a crise bate no bolso. Mas, especialistas alertam que se não estivéssemos protagonizando um ciclo econômico ruim, muitas pessoas não teriam a mesma disposição para sair às ruas. O que se faz relevante é jogar luz sobre o que é o verdadeiro “dever cidadão”. Muitas fotos postadas nas redes sociais repetiam a legenda: “já cumpri meu dever com o País.” Enganam-se mais uma vez: não consolidamos um avanço sem o conhecimento do todo.

As palavras de ordem, os gritos e os xingamentos à classe política nas ruas revelam mais do que o ódio de uma parte dos brasileiros a determinados políticos. Esse comportamento mostra uma análise política sob o olhar passional do futebol. O coro entoado desde os vagões do metrô refletem o brasileiro classificado por Sérgio Buarque de Holanda, um homem cordial. Um homem que, na verdade, não é pacífico e sim apaixonado. Movido pela intolerância e pela passionalidade. Nesse cenário, o discurso do ódio ganha força. Não há espaço para o diálogo em uma conjuntura tomada pela dicotomia do bem e do mal. Por isso, essas manifestações não empurram para frente a política do Brasil. Há uma indignação que não evolui para a ação.

Para fechar, as faixas louvando a atuação do juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, dão o tom do desconhecimento sobre as responsabilidades básicas de cada um dos poderes. As condecorações são dispensáveis uma vez que é função da Justiça investigar e se debruçar sobre irregularidades. Não basta ir às ruas, é preciso fazer a lição de casa. Não basta analisar sob a ótica do observador-torcedor, esvaziado de senso crítico. Por fim, não há evolução política com a pura negação do sistema vigente, tampouco a partir de uma visão maniqueísta dos fatos. A política tem muitas faces – que infelizmente ficaram invisíveis aos muitos que saíram as ruas acreditando ter cumprido sua missão.

 

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