Os brasileiros descobriram o Congresso

Brasília

Nos últimos tempos, observo nas ruas, nos elevadores, nos bares, nas escolas ou em qualquer outro lugar um desejo quase que incontrolável de se falar sobre política. Os motivos são óbvios, a operação Lava Jato abastece diariamente o noticiário e o processo de impeachment deixa os ânimos à flor da pele. Mas esse anseio de repercutir o que ocorre nos corredores de Brasília ainda se revela frágil na sociedade brasileira do ponto de vista do conteúdo. Hoje, mais do que nunca, é preciso questionar: como os brasileiros olham para a política? Como um fosso escuro distante que em nenhum momento dialoga com a vida prática? Outras vezes como um jogo de futebol, com paixões exacerbadas? Trata-se de um olhar puramente institucional e como as nossas esferas instituições estão desgastadas e manchadas de corrupção fica fácil ceder à visão genérica e conformista. Quem não escuta por aí que são todos iguais, que ninguém presta, que o Brasil não tem solução? Não que a política institucional não esteja transbordando de corrupção, mas a relação com a política precisa ser outra. É urgente que seja distinta.

Há certo distanciamento na forma como se observa a política. E quando há proximidade, ela se dá pelas vias emocionais – daí vem à tona as formas mais antigas e ainda presentes de troca de favores. A verdade é que essa troca se dá ainda hoje de forma muito evidente. Se notarmos quais são os partidos e candidatos financiados pelas grandes empreiteiras durante as campanhas podemos obter um espectro das consequências do financiamento empresarial na política. Hábito pouco recorrente entre a população é verificar a origem dos recursos empregados nas campanhas. E muita coisa poderia mudar a começar por aí: cada cidadão teria, então, o direito de escolher o candidato financiado por determinada companhia. Outro aspecto que deve saltar aos olhos é que o voto em si se constitui como a ponta de iceberg. É o produto final de um sistema. Se esse instrumento deve ser facultativo ou não, há correntes que defendem ambos os lados. No entanto, o ponto é dizer que enquanto for obrigatório no Brasil há outras formas – que parecem invisíveis – de se utilizar essa arma poderosa.

Câmara dos Deputados: deveria representar os interesses do povo
Câmara dos Deputados: deveria representar os interesses do povo

Os brasileiros descobriram o Congresso desde a votação do impeachment da presidente Dilma. O que ocorreu reflete na medida exata o que é a política brasileira. A Casa dos Deputados cuja função é servir e representar o povo enalteceu ali, na fala de cada parlamentar, suas próprias famílias, o deus no qual acreditam. Tudo, menos o eleitor. Esse é o formato personalista, que deixa de lado os argumentos e coloca em primeiro lugar a imagem pessoal de cada político. No entanto, é bom lembrar que apenas 36 dos 513 deputados federais foram eleitos com votos diretos. Apenas 7% dos parlamentares obtiveram o mínimo de votos necessários para ter seu espaço na Câmara. Os outros 477 são beneficiados pelos candidatos do mesmo partido que são mais bem votados, são os chamados puxadores de votos. Essa é uma das deficiências mais evidentes do sistema político brasileiro. Por isso, vale a pena questionar se a democracia brasileira é tão representativa assim. Por isso também, é tão fundamental empunhar, debater e entender a reforma política – por mais obstáculos que ela venha a enfrentar antes de ter algum de seus itens aprovado.

Além disso, existem outros problemas de representatividade na Câmara. Somente 20% dos deputados federais são negros enquanto na população representam mais 50%. As mulheres são 51% dos brasileiros, mas na Câmara não passam de 9,9%. Não por acaso é tão difícil alcançar e consolidar algum princípio de mudança no sistema eleitoral. A falta de representação é explícita e a margem que os brasileiros possuem para mudar alguma coisa é estreita. A classe política no Brasil se tornou alvo dos clãs políticos, famílias que fazem de tudo para se perpetuar no poder, sem necessidade de nenhum respaldo social. Com o passar do tempo, os clãs mudam suas características, mas continuam existindo. Basta levar em consideração o baixo nível de interesse pela militância institucional. Segundo jovens que atuam em partidos políticos, hoje o objetivo é fazer carreira. Esse tipo de interesse não é ilegal, mas fecha as janelas da renovação e limita as possibilidades de surgimento de novas figuras com características e habilidades diferenciadas.

O horizonte não é dos melhores. Os motivos para querer desistir são legítimos. Muitos especialistas defendem que o nosso sistema eleitoral está entre um dos piores do mundo. Não se pode deixar tudo nas costas do eleitor e dizer simplesmente que “o brasileiro não sabe votar”. Num País em que a formação político cidadã é negligenciada nas escolas e em universidades, a pessoa atinge a idade adulta, não raro, sem ter ideia dos pormenores da política. Votar e escolher um lado não são tarefas fáceis. Por isso mesmo é preciso que se busque mais informações o tempo todo. Saber por que vivemos numa democracia representativa sem que tenhamos nossos interesses, de fato, representados. Este é o caminho para se depurar o quadro político. A conformidade não pode ser a resposta imediata à espetacularização e a falta de representatividade do nosso sistema. Qualquer resultado que se alcance será lento, mas não é possível deixar de batalhar e finalizar o debate ao primeiro sinal de resignação.

Fotos: Fabíola Perez

Túnel do Tempo do Congresso: reúne em suas paredes os principais momentos da política brasileira
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