Eu vejo o futuro repetir o passado

Realmente o tempo não para. E parafraseando Cazuza, muitas vezes anda para trás. Não há motivos para um brasileiro sequer comemorar o abismo em que acabamos de entrar. Trata-se, como diz a música, de um museu de grandes novidades. Durante os últimos meses antes de a presidente Dilma Rousseff ser afastada pelo Senado, ouvia-se panelas, pessoas bradando nas ruas contra a corrupção petista e, de repente, toda e qualquer forma de protesto silenciou. O temor pelo futuro se justifica por uma série de anúncios feitos no primeiro dia de governo de um presidente ilegítimo – porque do ponto de vista da legitimidade, um governo precisa do respaldo popular para garantir o status de representante dos governados. Isso não ocorreu.

Presidente interino, Michel Temer
Presidente interino, Michel Temer

Na primeira fala de Temer como presidente interino, em que a suposta sobriedade idealizada foi trocada por risos de canto de boca, aplausos e gritos coletivos, o novo mandatário deixou claro que a primeira medida sinalizadora de mudanças é a redução no número de ministérios. Isso, porém, parece ter sido executado da forma mais impensada possível. Extinguir ministérios daqueles que já sofrem com a invisibilidade social é reforçar as diferenças que aprofundaram a desigualdade do País por séculos. Foram encerradas as atividades nos Ministérios das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Enquanto discursava, na quinta-feira 12, Temer estava rodeado por homens brancos. Fotos testemunham que não há nenhuma mulher em sua equipe ministerial, fato que não ocorria desde os tempos da ditadura militar. A partir disso, não é difícil constatar que tipo de debates, discussões e decisões verticalizadas e monocráticas nos restarão.

Além do enxugamento dos direitos sociais, o Ministério da Cultura também foi extinto. Nesse contexto, vale lembrar que não raro, nos deparamos com a crítica de que “brasileiro não tem cultura”. Já temos de enfrentar a negação de diversas manifestações culturais tipicamente brasileiras. Agora, não haverá um órgão instituído e com o objetivo de dar continuidade às políticas públicas culturais de forma exclusiva. Outro ponto sensível é a extinção da autonomia da Controladoria Geral da União. Como é possível combater a corrupção sem a independência entre os órgãos? Não era o combate à corrupção o principal mote dos protestos que tomaram as ruas até agora? Não bastasse isso, vale ressaltar que sete dos novos ministros escolhidos por Michel Temer tem seus nomes citados na Operação Lava Jato e acabaram de obter foro privilegiado. O País parou quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi escolhido para comandar a Casa Civil. Hoje, não se vê a mesma revolta. Já existe um abaixo-assinado na Avaaz para o Supremo impedir a nomeação dos ministros Geddel Vieira Lima, Romero Jucá, Henrique Eduardo Alves, Bruno Araújo, Ricardo Barros, Raul Jungmann e José Serra.

Outra decisão que não foi seguida de protestos e comprova a indignação seletiva do País é a suspensão da busca por provas contra Aécio Neves no que se refere ao seu envolvimento num esquema de propina em Furnas. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes acatou a argumentação da defesa e concluiu que não há elementos que justificam um inquérito. Para citar outros ganhos do PSDB com o atual momento político, temos no importante posto de ministro da Justiça e Cidadania, Alexandre de Moraes. O ex-secretário de segurança do governador Geraldo Alckmin reprimiu violentamente todas as manifestações políticas ocorridas em São Paulo. Ele deu aval para o aval para a Polícia Militar usar a força repressiva da forma que julgasse necessária. Pela primeira vez, foram usados blindados israelenses para dispersar um protesto. Durante a sua gestão, a polícica foi responsável por uma a cada quatro mortes de pessoas assassinadas na cidade de São Paulo.

Não para por aí. Poderíamos fazer uma lista ainda maior de contradições já anunciadas pelo novo governo. Tudo prova que é a velha política, o velho modelo que está em curso. Mais forte do que nunca. Por fim, Temer pediu, em seu pronunciamento, que não se fale mais em crise. Apenas que se trabalhe. Fica difícil não falar em crise quando o que se tem pela frente é um período muito mais nebuloso. Não se trate apenas dos índices da economia que dão sinais de falência. Trata-se da crise da democracia. O futuro da democracia, como dizia Norberto Bobbio, está em jogo. “É preciso que aqueles que são chamados a decidir ou a eleger os que deverão decidir sejam colocados diante de alternativas reais e postos em condição de poder escolher entre uma e outra.” Não é o que assistimos.

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