Uma luta de todas nós

O Brasil é um país onde problemas gravíssimos permanecem velados. Casos de racismo, homofobia, violência de gênero ocorrem todos os dias e ainda assim são invisíveis aos olhos de tantos. O caso da menina de 16 anos que foi estuprada por mais de 30 homens no Rio de Janeiro causou revolta, perplexidade, indignação e comoção. Por meio de redes sociais, os criminosos compartilharam um vídeo com cenas do estupro. A dor da garota se transformou em objeto de humor de quem executou o crime e de todos aqueles que agiram de forma conivente. Não há como assistir um fato inaceitável como esse acontecer diante de nós sem refletir minimamente sobre. Sem lutar, sem batalhar, sem discutir. E, sobretudo, sem mostrar porque hoje, mais do que nunca, o feminismo é tão importante. Vital.

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Feminismo não é sinônimo de machismo. Ser feminista não é pregar violência contra os homens. Ser feminista é tentar mostrar, gritar ao mundo como ele é percebido sob o nosso ponto de vista. Ser feminista é lutar contra o fosso imenso que nos separa dos homens. Ser feminista é batalhar por igualdade de gênero. E uma vez que se descobre o tamanho desse buraco fica difícil não lutar com unhas e dentes por direitos básicos. E o mais básico de todos é o direito de ir e vir. Quantas vezes já tivemos que desviar o caminho de casa para o trabalho por medo, por engolir a seco o pavor de uma ameaça. Por quanto tempo ainda seremos julgadas pelas roupas que vestimos? Ou ainda quantas vezes por dia será necessário entrar num transporte público e se sentir numa selva com seres tomados pelo mais animal dos instintos? Quantas mulheres ainda terão de endurecer a postura para garantir que sua fala seja respeitada no ambiente de trabalho?

Certa vez, olhei nos olhos de uma menina que pegou um táxi sozinha para voltar para casa a noite. Durante todo o caminho, o taxista a assediou. Falava coisas que a incomodava, acendia a luz para enxergá-la melhor. Tudo o que ela pode fazer naquele momento era torcer para não acontecer nada, para o caminho não ser desviado. Naquela noite, ela se sentia suja, se sentia culpada por estar sozinha. Por não estar em casa. Por ter se arrumado, por ter chamado a atenção do homem. Sentiu-se um objeto. Sentiu-se impotente. Quantas outras vezes a vítima precisará se sentir culpada? A sensação de impotência diante da violência de um assédio ou de um estupro corrói. E ela não pode, nem merece suportar a dor da culpa. Há uma inversão de responsabilidades escandalosa na culpabilização das vítimas que precisa mudar.

Agrega-se as formas tradicionais de violências o elemento de poder provido pelas redes sociais. O compartilhamento de imagens ou vídeos que expõem as vítimas é visto como um troféu. Trata-se de uma vitrine por meio da qual o agressor alcança a visibilidade que deseja. Mas casos como o da menina do Rio revelam o pior nível de barbárie que o ser humano pode chegar. Imaginemos agora o número de casos que não chegam às delegacias, os abusos que não chegam à imprensa. Imaginemos a quantidade de abusos que ficam para sempre silenciados no corpo e na alma das vítimas. São muitos. Nesse contexto, em que a cada 11 minutos um estupro acontece no Brasil, é inaceitável não termos mulheres nos ministérios e termos um governo que não dá a devida importância à um órgão como a Secretaria Especial de Política para Mulheres. Ainda mais inadmissível é ver qualquer pessoa questionando a existência de movimentos feministas. Ainda bem que existem pessoas que lutam por nós e gritam por mim quando eu mesma não consigo ou quando tentam calar a minha voz.

Infelizmente ainda existem muitas formas de preconceito e discriminação. Mas há muitos caminhos para mostrar que posturas como essas não serão toleradas. A misoginia e o sexismo estão aí escancarados para quem quiser e quem não quiser ver. Das atitudes corriqueiras às notícias que causam comoção nacional. O discurso precisa ser mais livre de julgamentos e mais disposto à compreensão. Hoje, me sinto impotente como mulher, como ser humano. Mas ao mesmo tempo me sinto forte por assistir nascer em cada vez mais garotas e mulheres sentimento genuíno de querer saber e batalhar – custe o que custar – por seus direitos. Uma vontade voraz de não se deixar oprimir dentro de casa, no trabalho, nas ruas. Em qualquer lugar.

Sinto-me forte em saber que é uma luta de todos nós.

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