Por que o Brasil tolera a cultura do estupro?

Cultura do EstuproO que é a cultura do estupro? Para começarmos a entender é preciso observar que existem comportamentos e atitudes diárias que não envolvem necessariamente a violência e colocam a mulher em posição de desigualdade, opressão e objetificação. Isso não é aceitável, não é justificável, tampouco tolerável. Mas esses padrões estão difundidos e arraigados em todos os cantos, nas escolas, universidades, nas ruas, ambientes de trabalho, relacionamentos pessoais, dentro de casa, nas delegacias, nos três poderes na roda de amigos, na propaganda e na indústria cultural. Por isso é tão difícil percebê-los e combatê-los. Toda vez que uma mulher se sentir desrespeitada, for vítima de insultos, ameaça psicológica, agressão física e estupro é preciso entender que existe uma cultura por trás disso que reforça e permite apontar a mulher como culpada. Por isso é tão importante inverter essa lógica de pensamento. Abaixo uma entrevista com Leila Linhares Barsted, coordenadora da ONG Cepia Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação. A advogada ajuda a entender como não naturalizar qualquer tipo de violência ou comportamento que endosse a desigualdade de gênero.

Há uma tolerância em relação à violência contra a mulher?

Existe uma permissividade que sempre ocorreu em relação aos crimes de violência contra a mulher. Os números de crimes contra a mulher são altos, mas há uma subnotificação que precisa ser considerada. Há uma dificuldade de denunciar estupros realizados por estranhos e conhecidos. Há uma cultura que naturaliza, justifica e coloca sobre a mulher a culpa porque ela sai à noite ou porque a saia é curta. Existe um pensamento machista de que as mulheres tem que estar presas dentro de casa, mas mesmo dentro de casa elas são agredidas.

Em que medida nossa cultura influencia essa violência?

No Brasil, há uma cultura predatória. Percebemos que essa cultura tem tido mais visibilidade por conta das redes sociais e, consequentemente, há uma maior mobilização da opinião publica contra esses atos violentos. Temos um passado histórico de uma cultura predatória sexual contra as mulheres escravizadas. É importante que a mobilização ocorra no curso do processo, que esses casos possam servir para mudar essa cultura de alguma maneira. Essa cultura encontra pessoas que culpabilizam as vítimas. Apoiar cenas degradantes é se comportar como assassinos dos sonhos e da vida de outros seres humanos.

Faltam serviços de atendimento e atenção às vítimas?

Muitas vezes, a vítima procura o serviço de saúde para tomar um medicamento, saber sobre os serviços de contracepção de emergência, mas são pouco divulgados. Há campanhas de saúde contra a dengue, mas não contra violência sexual. Quando uma mulher vai a uma delegacia e não se mobilizam para encontrar o agressor, ignora-se o fato de que aquela pessoa pode vitimar outras mulheres. No Rio de Janeiro, foi feito um mapa identificando áreas de maior incidência de estupro. O que ocorre nessas áreas? Existem estupradores contínuos, que agem em áreas que não tem iluminação, policiamento e os pontos de ônibus são muito distantes uns dos outros. O Brasil falha com essa política de prevenção do estupro, falta uma política integrada de segurança, saúde e educação. Além disso, a cultura machista se apresenta muito cedo na vida das crianças.

Existe um silencio vindo da sociedade e das autoridades?

As meninas vítimas de violência não conseguem saber onde procurar serviços como o direito à interrupção de gravidez em caso de estupro. Existe um silencio vindo de todas as partes. As relações se tornam mais distanciadas e isso afrouxa laços de solidariedade social. Há campanhas para envolver os homens, entre os jovens rapazes há uma abertura maior para o feminismo. Isso está começando a influenciar meninos e adolescentes. Mas, na realidade, há um silencio dos homens adultos.

Como as redes sociais se inserem nesse debate?

O estuprador quer se exibir e as redes sociais são os palcos. Isso é novo, porque antes o agressor queria se esconder. Ele acredita que pode ficar impune. Por outro lado, as redes permitem que as mulheres se mobilizem, que repudiem. Estamos em um cenário de retrocesso, colocando em risco direitos importantes. Falta um investimento pesado na questão da prevenção, de repúdio a cultura machista. É preocupante que as instituições não se mobilizem para cumprir a lei, que já existe. Só precisa ser amplamente aplicada. Nesse cenário, a barbárie se instaura.

A opressão e a violência são manifestações segmentadas em classes sociais?

Essas manifestações de violência acontecem em campos universitários, em escolas. Não se trata de uma cultura somente daqueles que a sociedade já reconhece como criminosos, refere-se a todos aqueles que acreditam ter direito de se apossar do corpo da mulher.

 

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