Extermínio tolerado

Foto_Waldik

Waldik Gabriel Chagas, 11 anos, tinha o olhar esperto e um jeito descontraído de posar para fotos. Diziam na Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, onde o garoto nasceu, que ele não parava quieto, corria na rua, subia pelas paredes, pulava muros. Sumia de vez em quando. No entanto, há um ano Biel, como era chamado pelos amigos, começou a andar com más companhias, segundo seus familiares. Em uma dessas escapadas, uma bala de um guarda civil metropolitano o acertou na nunca. Daquele sábado 25 em diante, Waldik deixou de correr, parou de saltar, não seria mais rebelde, tampouco super homem. Ele e o garoto Ítalo, de dez anos, que morreu recentemente após uma suposta troca de tiros com um policial militar no Morumbi, endossam a lista de 10,5 mil crianças assassinadas em 2013. Isso equivale a dizer que 28 crianças e adolescentes são mortos por dia no País. Segundo a Unicef,o Brasil está em segundo lugar no ranking de homicídios de meninos e meninas de até 19 anos, atrás apenas da Nigéria. E as perspectivas são ainda mais assombrosas: se nada mudar o Brasil pode registrar 42 mil assassinatos de adolescentes entre 2013 e 2019.

A polícia brasileira mata crianças e jovens. As mortes de Waldiks e Ítalos são toleradas sem a menor indignação. Garotos como eles sequer entraram para as estatísticas que elevam o número de homicídios no País. Há uma reação inversa da sociedade que relativiza a morte das crianças e não enxerga as estratégias equivocadas adotadas pelo Estado para combater a criminalidade. A faixa etária que mais morre no Brasil é de jovens entre 17 e 24 anos. Crianças como essas são pessoas em condição de total vulnerabilidade. Na casa de Ítalos e Waldiks não há a presença constante de pais e mães. Não raro, são abandonadas à própria sorte e acabam por aguçar seu instinto de sobrevivência na prática. Ítalo viveu dias nas ruas. Waldik desapareceu por dias também. Muitos se envolvem nas chamadas más companhias e são levados para abrigos. A parcela que não possui pai e mãe morando na mesma casa vive com os avós, que, por sua vez, revelam dificuldades para acompanhar o desenvolvimento das crianças.

Falta de estrutura familiar é, certamente, o traço que une a grande maioria dessas crianças, abandonadas à própria sorte (ou ao próprio azar). Um levantamento realizado pelo Ministério Público de São Paulo revelou que dois entre três jovens infratores vêm de famílias que não têm pai dentro de casa. E dos 1.500 jovens ouvidos, 42% não tinham sequer contato com o pai. Com essa estrutura fragilizada, os jovens são facilmente aliciados e cooptados por grandes traficantes, homicidas e chefes de quadrilha para o crime. São a mão de obra barata, a ponta mais frágil e mais vulnerável do sistema. Porém, mesmo sabendo da hierarquia do crime e da importância dessas crianças para seus aliciadores, a polícia insiste em usar técnicas, ações e estratégias erradas. Tanto Waldik quanto Ítalo morreram em perseguições policiais. Como se fossem caçadas incansáveis atrás de um inimigo.

Orlanda Silva, mãe do menino Waldik, de 11 anos
Orlanda Silva, mãe do menino Waldik, de 11 anos

As falhas brutais da polícia civil, que peca nas investigações e na apuração dos fatos, e da polícia militar, que tem uma espécie de licença para matar, são determinantes para concluirmos que o Estado mata suas próprias crianças e as enterra cada vez mais cedo. Waldik estava no banco detrás de uma Chevette quando foi morto por um guarda civil metropolitano. O tiro foi fatal. Não foi para o alto em sinal de alerta. Também não acertou os pneus para impedi-los de continuar o trajeto, foi na nunca do garoto. Hoje, nem uma semana após o fato, o guarda civil que o matou, Caio Moratori, condenado a homicídio culposo – quando não há intenção de matar, pagou a fiança e está solto. Os homicídios passam a ser vistos como tentativas de controlar a desordem e sob essa justificativa, a polícia ganha o consentimento social para executar. Enquanto o necessário e urgente seria uma ampla reforma com a integração dos efetivos, a desmilitarização da polícia militar, o emprego eficiente de recursos nos serviços de inteligência da polícia. Sem isso, a criminalidade continuará prejudicando todas as partes da sociedade.

Também é preciso falar do sistema de ressocialização. Faz parte do senso comum pensar na internação de jovens que cometeram delitos como a primeira medida a ser tomada. Mas, assim como o Brasil prende muito e prende mal os adultos, a realidade com os jovens se repete. Há um excesso de internações provisórias. A internação deve ser aplicada quando há reincidência em roubo, tráfico, latrocínio e homicídio. Porém, ao contrário disso, a maior parte das internações corresponde a jovens primários no tráfico de drogas. Um adolescente internado custa ao Estado cerca de R$ 7 mil por mês e com o excesso de internações o trabalho de ressocialização fica comprometido. Existem alternativas como programas de liberdade assistida, prestação de serviços à comunidade que poderiam ser fiscalizadas por prefeituras, juízes e conselhos tutelares. Tirá-los de circulação de forma imediata não soluciona o problema.

A Justiça não funciona. O Estado, ao invés de prover segurança e formação, investe em uma estratégia que executa. E não vai a fundo para investigar as origens dos problemas sociais. Não à toa, a violência aumenta, a criminalidade cresce, crianças morrem, a tragédia se banaliza e a sensação é a de que os órgãos de segurança apenas enxugam o gelo – para não dizer o sangue que derramam dessas gerações.

(Fotos: Folhapress e El País)

 

 

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