Por trás das grades, meninas invisíveis

B., vivia com a avó e nunca recebeu uma visita da mãe na unidade de ressocialização
B., nunca recebeu a visita da mãe na unidade de ressocialização

Os muros são altos, não há janelas. E a única forma de se comunicar com quem está do lado de lá é por um pequeno orifício em um vidro preto. Duas mães esperam ansiosamente para serem atendidas. São pelo menos três portões de metal que separam as meninas que cometeram algum ato infracional do restante da população de São Paulo. Da sala da diretoria da unidade Chiquinha Gonzaga, uma das quatro instalações do Estado encarregadas de ressocializar as menores, é possível avistar alguns coques presos no alto da cabeça e olhares curiosos vindos do módulo um. Ouve-se um burburinho de todas as salas. Descemos um lance de escadas e um funcionário surge para abrir as grades e liberar nosso acesso à realidade das garotas.

Na sala ao fundo do corredor estão as primeiras jovens infratoras da unidade. Agitadas, dinâmicas, falantes. Estavam assistindo aula. Algumas, de tão concentradas nem levantam os olhos do caderno. Outras, mais dispersas, gargalham e circulam pela sala. Os cabelos desgrenhados, presos com elásticos no alto da cabeça ou até mesmo raspados combinam com os uniformes de blusa branca e calça de moletom azul escuro. Algumas carregam um olhar desconfiado, que impõe distância a qualquer desconhecido. Outras veem nas visitas uma oportunidade de compartilhar suas experiências e o dia a dia na unidade. Numa sala vizinha, garotas um pouco mais nova se entretém na televisão. Me aproximo para conversar. “Já é a quinta vez que assistimos esse filme, não tem outro”, diz uma delas. Mais tarde, fico sabendo que, além de terem um tempo estipulado para a televisão, não podem acompanhar o noticiário.

Mais adiante outro grupo de meninas pintam desenhos e colam retalhos de tecido sobre os papéis. “Elas estão fazendo a decoração da festa junina”, diz um das professoras da sala. Para as garotas, é mais do que isso, é uma forma de matar o tempo na unidade. Tímida, uma delas tem no braço uma tatuagem onde se lê “família”. A palavra reflete uma realidade comum às garotas de todo o País. As meninas costumam ser mais abandonadas pelos familiares do que os meninos. Há uma decepção muito maior quando as garotas se envolvem com o crime. Para castigá-las, as famílias acabam abandonando-as nas unidades.

Meninas normalmente são mais abandonadas do que os garotos nas unidades de ressocialização
Meninas normalmente são mais abandonadas do que os garotos nas unidades

Do lado de fora, muitas se distraem em uma quadra. E mesmo com o tempo frio e seco, preferem o ar livre para bater papo. Encostadas nas paredes, dezenas de meninas passam a tarde bordando. Outras jogam vôlei. Interrompo a conversa de um pequeno grupo de garotas. Receptivas, prontamente me convidam para sentar e conversar. “A senhora vai escrever sobre a gente?”, pergunta a mais falante. “Vou sim, mas não precisa me chamar de senhora”, respondo. “Aqui estamos acostumadas a seguir as regras, todo mundo pra gente é senhor e senhora”. Me esforço para ouvi-las uma por vez, tarefa difícil já que as quatro parecem querer compartilhar todos os detalhes de suas vidas de uma só vez. Começo com S.

Magra, miúda, olhar atento. Uma das poucas que deixa os cabelos cacheados soltos e levemente caídos sobre o rosto. Há oito meses divide o espaço com as outras por roubo e tráfico de drogas. S. não tem um bom relacionamento com a mãe e, desde criança, mora com os avós. Descobriu a droga na casa de uma amiga voltando da igreja. “Dei um tiro e comecei a cheirar.” S. conta diz que chegava a ganhar R$ 4 mil toda sexta-feira. “Mas não tenho nada desse dinheiro, é dinheiro que vem e vai rápido.” De qualquer forma, diz que gostava de poder “ostentar em baile funk”. B. fala um pouco mais devagar. Ela também foi abandonada pela família. Morava na casa da avó desde que foi afastada da mãe pelo Conselho Tutelar. Com poucos minutos de conversa eufórica, B. perde um pouco do entusiasmo quando se lembra de como se envolveu com o tráfico. “A gente roubava casas para conseguir dinheiro”, diz. Ela lembra que começou a traficar incentivada pelo namorado e pelo grupo de amigos. B. nunca recebeu a visita de nenhum familiar na unidade.

Com o bate papo interrompido pelo diretor, sou levada para conhecer o módulo onde ficam as garotas que estão grávidas ou acabaram de ter filhos. Nesse espaço, tudo é muito bem arrumado. As meninas cuidam da faxina e decoram os berços dos bebês. No quarto, conheço P. Pele clara, cabelos escorridos e olhar distante, muito distante. É difícil conversar com ela. Com poucas palavras e com o filho de dias nos braços, ela conta que “as vezes as pessoas se perdem e se deixam influenciar na vida”. P parece ter encontrado refúgio na religião. Ela se diz espírita e conta que o que mais quer é sair da unidade para cuidar de seu filho em paz. Conversando com a assistente social, descubro que P. havia cometido um homicídio, também incentivada e acompanhada do companheiro. “Ela não gosta de falar sobre isso”, diz a assistente. Segundo as estatísticas de São Paulo, somente duas entre 15 garotas cometem crimes mais graves como assassinato e latrocínio.

Módulos das mães e grávidas: fazem faxina e cuidam dos bebês
Módulos das mães e grávidas: fazem faxina e cuidam dos bebês

P. tem certeza que sairá da Chiquinha Gonzaga para uma nova vida. S. não sabe o que a espera fora da unidade. “Quero criar meu filho, ver ele crescer”, diz. Mas ao mesmo tempo ainda não descobriu como resistir ao dinheiro do tráfico, que vem e vai fácil. B. ainda não pensa sobre o futuro. Apenas tenta se entreter bordando seu nome em um pedaço de papel. Ela quer tentar esquecer, pelo menos por algum tempo, que não teve família, que nunca recebeu atenção nem cuidados. Quer apagar a lembrança das corridas da polícia, dos assaltos a queima-roupa. Esquecer que nunca recebeu a visita da mãe. E pensar que se infringiu a lei, a vida também falhou duramente com ela.

Fotos: João Castellano

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