O preço por não se deixar oprimir

Além da Mídia 01

Ninguém morre por cantada na rua. Que exagero. Conversa furada de feminista. Afinal, quem não gosta de ser desejada. A trágica história da diarista Michelle Ferreira Ventura, de 30 anos, revela exatamente o contrário do que sugerem os comentários acima – tão naturalizados em nossa sociedade. Ela morreu de morte espancada. Foi brutalmente agredida depois de reagir a uma sequência de assédios. Tudo começou no dia 14 de março, quando Michelle deu entrada em um hospital de Rio de Janeiro, depois de ter sido atingida por pauladas na cabeça. Quatro meses, as inofensivas cantadas enterraram a diarista no cemitério Maruí, em Niterói. Michelle passou todo esse tempo em estado grave no leito do hospital. O autor do ataque, Leonardo Bretas Vieira Mendes foi indiciado e está com o julgamento marcado para agosto.

Michelle, que passou seus últimos dias sem se comunicar, em estado vegetativo, somente respondendo a estímulos, faz parte das estatísticas de mulheres assassinadas que coloca o Brasil no quinto lugar entre os países onde mais se matam mulheres no mundo, atrás apenas da Rússia, Guatemala, Colômbia e El Salvador. O País tem uma taxa de 4,8 mortes por 100 mil mulheres, segundo o Mapa da Violência de 2015. Nesse mesmo estudo, a Síria, que sofre os efeitos de uma guerra civil, ocupa o 64º lugar. E para piorar, o Brasil subiu duas posições nos dois últimos anos. Diante de fatos e índices como esses, não é apenas oportuno falar sobre igualdade de gênero. É imprescindível. “Estamos num país que odeia mulheres”, diz Djamila Ribeiro, secretária adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo.

Michelle Ferreira Ventura, de 30 anos, morreu após reagir a um assédio em Niterói (RJ)
Michelle Ferreira Ventura, de 30 anos, morreu após reagir a um assédio em Niterói (RJ)

Muitos homens se sentem autorizados e legitimados pela sociedade a violentar mulheres. “Alguns simplesmente não querem perder determinados privilégios”, afirma Djamila. Michelle e tantas outras parecem ter sido criadas para viver no âmbito doméstico, quando se manifestam, protestam e discordam no espaço público são rechaçadas, agredidas e caladas. Mas até quando mudar a rota? Até quando sentir medo e se deixar oprimir? Aquelas que não quiserem se submeter terão de pagar o mesmo preço que Michelle pagou? Até quando o desejo “incontrolável” masculino vai deixar tantas marcas, sejam elas físicas ou psicológicas? Michelle reagiu e pagou com a própria vida. Durante os meses em que ficou internada no Centro de Tratamento Intensivo passou por uma cirurgia neurológica para retirar coágulos. O quadro de Michelle se agravou e culminou em uma infecção e algumas paradas cardíacas.

“Estamos num país que odeia mulheres”, diz Djamila Ribeiro, secretária adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo
“Estamos num país que odeia mulheres”, diz Djamila Ribeiro, secretária adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo

Os golpes aconteceram em uma rua deserta na comunidade da Ilha da Conceição, em Niterói. Assim como normalmente ocorre em tantas outras ruas escuras e desertas do País. E mesmo assim, com todos os indícios escancarados de que a violência de gênero castiga a vida de tantas mulheres no País, há quem resista à lei do feminicídio. A procuradora de Justiça Luiza Nagib Eluf afirma que a nova lei completou um ano sem resultados efetivos. Afinal, ainda não há o entendimento de que, sim, mata-se uma mulher simplesmente por ela ser mulher. É a última instância de violência contra a mulher. E o risco da morte é inerente. Uma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão mostrou que 85% dos entrevistados acreditam que mulheres que denunciam seus parceiros correm mais risco de serem assassinadas. O silêncio também não anula o crime. Para 92% dos entrevistados, quando as agressões contra a companheira ocorrem com freqüência também podem terminar em morte.

Michelle escolheu um caminho (o qual o Estado, tampouco a sociedade, não lhe garantiram respaldo): reagiu ao assédio e pagou com a vida o preço de não se deixar oprimir. Leonardo, o agressor, aguarda ser julgado pelo mesmo sistema que reforça a cultura do machismo, que dificulta a aplicação das leis em sua totalidade, que rejeita novos caminhos, como a Lei do Feminicídio, que se nega a admitir a intolerância e que prefere a morte à igualdade de gênero. Ainda precisamos falar de feminismo?

 

 

 

 

 

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