Entrevista

“Não vou ficar na cadeira cativa à presidência da República”

Marina: "se for para a política continuar relevante, não tenho nenhum problema em não estar na política institucional"
Marina: “se for para a política continuar relevante, não tenho nenhum problema em não estar na política institucional”

Além da Mídia – Os partidos políticos estão passando por uma crise de representatividade? A senhora concorda com esse ponto de vista? 

Marina Silva – As pessoas estão reconhecendo que há matrizes da política. E isso também se traduz em crise dentro dos partidos políticos. A crítica que está sendo feita à política no mundo inteiro é o forte questionamento da visão, dos processos e das estruturas que se tem em relação ao fazer político. Quem disse que nós estamos no “Nirvana”, no céu da democracia? Estamos diante da possibilidade de um novo sujeito político. Antes quem operava os processos políticos eram os acadêmicos, as cooperações, os governos, os sindicatos e ONGs. Hoje, com a internet, bilhões de pessoas estão buscando novos aplicativos para a democracia.

Além da Mídia – É possível canalizar a energia política das manifestações para o atual sistema político?
Marina Silva – Acredito que se partirmos da ideia de que devemos canalizar a energia produtiva e da sociedade para as estruturas estagnadas que temos hoje, talvez a gente corra o risco de estagnar o próprio processo político inovador. Por que não pensamos na possibilidade de que os partidos políticos se reestruturarem diante das novas demandas da sociedade? O problema só será resolvido dentro dos partidos políticos? Não se consegue pensar fora daquilo que já está estabelecido. Se a gente não for capaz de admitir que há um núcleo estagnado e que uma parte da sociedade que está se descolando desse núcleo para constituir nova superfície de sustentação a gente não vai conseguir avançar. Quem disse que as estruturas não podem ser atualizadas?

Além da Mídia – O que mudou desde 2010 com sua projeção nacional?
Marina Silva – As pessoas não querem mais assistir a disputa do poder pelo poder, quem tem mais alianças, independentemente da qualidade política. Hoje assistimos a uma espécie de privatização dos partidos políticos. As alianças são feitas e os partidos passam a ser donos de partes do Estado brasileiro. Não vou ficar na cadeira cativa à presidência da república. Se for para a política continuar relevante, não tenho nenhum problema em não estar na política institucional. Não tenho problema em fazer essa escolha. Por isso estamos em um movimento por uma nova política. Não se faz partido político por causa de eleição. Faz-se um partido quando se tem uma ideia, quando se pode juntar pessoas em cima de um ideário de mundo.

Além da Mídia – Houve uma decepção com o modelo que a senhora acreditava no PV?
Marina Silva – Eu já sabia que o PV tinha problemas, mas houve um compromisso de que se faria uma reestruturação do partido. Sabia que seria muito difícil, porque os que estavam à frente do processo tinham muita dificuldade de oxigenar o partido com esses núcleos vivos da sociedade. Há uma decepção da sociedade brasileira. A novidade que se revelou foi que da mesma forma que eu saí do PT por entender que o partido não estava sendo capaz de integrar os desafios da sustentabilidade como eixo estratégico do seu programa, também sai do PV por perceber que não há como se fazer um novo modelo de desenvolvimento e a nova política com as velhas práticas da centralização e falta de democracia.

Além da Mídia – O desejo de fazer política de forma independente continuará tomando a cena política?
Marina Silva – A ideia de um novo sujeito político, que não quer mais ser expectador da política e sim protagonista, acontece independentemente do momento eleitoral. A eleição é um momento onde a questão política se acentua mais. A grande novidade é a existência do fazer político nos intervalos das eleições e não a política como um simples passo de disputa pelo poder como vem acontecendo historicamente em vários momentos da história brasileira.

Entrevista realizada em setembro de 2012.

Para ler o artigo sobre a filiação de Marina Silva ao PSB de Eduardo Campos, clique aqui: A teoria e a prática de Marina Silva

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“O FMI vive um momento de inércia institucional”

Paulo Nogueira, diretor executivo do FMI pelo Brasil e mais oito países da América Latina e do Caribe

Que a crise financeira virou o mundo de cabeça para baixo todos sabem. Mas, as conseqüências dessa reviravolta ainda vêm surpreendendo muitos especialistas. Hoje, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a principal instituição financeira responsável por fornecer respaldo aos países mais abalados pela crise mundial atravessa um período de mudanças profundas, como a valorização dos Estados e dos bancos centrais como agentes de regulação e supervisão e a revisão das cotas que conferem maior poder de voto aos países emergentes. O diretor executivo do Fundo pelo Brasil e mais oito países da América Latina e do Caribe, Paulo Nogueira Batista Júnior, critica a resistência dos “países europeus super-representados” às mudanças e diz que essas economias “tentam postergar o inevitável”, referindo-se ao apelo por maior peso das economias emergentes nas decisões do Fundo. Para ele, “o organismo passa por um momento de inércia institucional e intelectual”. Batista admite ainda que o FMI avaliou mal a conjuntura internacional nos anos que antecederam a crise e não percebeu os problemas que se acumulavam nos sistemas financeiros dos Estados Unidos e na Europa. Segundo o economista, a crise também acelerou mudanças que caminhavam a passos lentos, aumentou o poder dos BRICS e serviu para romper com antigas doutrinas. Nesta entrevista, ele comenta as mudanças implementadas e os principais entraves para a nova fase de reformas até 2014.

Os emergentes devem responder no próximo ano por 56% do crescimento mundial. É possível que os BRICS sustentem a recuperação financeira europeia?

Os países em desenvolvimento têm apresentado uma taxa média de crescimento três ou quatro vezes superior à taxa de crescimento dos países desenvolvidos. Os cinco países que formam os BRICS representam 27% da economia global. Os países em desenvolvimento representam metade da economia mundial. Os BRICS têm influência positiva sobre o quadro mundial e sobre a Europa, mas não tem capacidade de sozinhos serem a locomotiva da economia mundial. É uma participação significativa e alta – principalmente da China –, mas insuficiente para puxar a economia mundial. Sozinhos, não conseguem sustentar a recuperação europeia.

Nos últimos eventos internacionais, os BRICS voltaram a defender uma reforma efetiva no FMI. Quando as economias emergentes deverão ganhar mais poder na instituição?

No comunicado da Cúpula de Nova Déli, os líderes dos BRICS expressaram de forma contundente o objetivo de aumento do peso de seus países no FMI. Isso reflete uma impaciência desses países com a lentidão das reformas do Fundo. Houve uma reforma em 2008, que levou algum tempo para ser implementada. No fim de 2010, foi aprovada outra reforma que está demorando a ser implementada e programou-se uma nova etapa para ser concluída até janeiro de 2014 e que está em andamento. Estamos observando duas coisas: uma dificuldade de se colocar em vigor a reforma de 2010 e uma lentidão na definição dos passos para a reforma de 2014, com sinais de que há resistência a mudanças, particularmente da parte dos países europeus super-representados. É uma situação paradoxal porque a Europa, a região mais super-representada, é aquela que está atravessando a crise mais grave e que precisa do apoio do resto do mundo através do Fundo Monetário. E apesar disso, os europeus resistem às mudanças. Isso gerou essa declaração contundente dos BRICS em Nova Déli.

Além de um maior peso nas decisões do FMI quais são os outros aspectos que fazem parte da reformas?

A instituição está mudando nos últimos anos. O volume de recursos à disposição do Fundo aumentou muito e há uma expectativa de que aumente mais ainda com o esforço de mobilização de recursos que foi lançado em janeiro pela diretora-gerente, Christine Lagarde. A meta é captar mais de US$ 600 bilhões em empréstimos bilaterais e os BRICS estão sendo chamados para contribuir com esse esforço. Outro aspecto é que há uma revisão das políticas da instituição, de empréstimos, de acesso a recursos, das condições impostas para a realização de empréstimos, dos mecanismos de monitoramento da economia mundial. Há também um esforço para aprimorar a assistência técnica que o Fundo dá aos países membros e reavaliar a forma de se pensar a política econômica. O choque provocado pela crise desde 2008 foi muito grande para os países desenvolvidos e para o Fundo Monetário, em particular. Há todo um processo de reexame de antigas convicções e doutrinas. Não é um processo fácil. Há muita inércia, não só inércia institucional, mas inércia dos países que estão super-representados, como os europeus. Há também uma inércia intelectual e de procedimentos que se procura romper. E países como o Brasil têm procurado contribuir para acelerar esse processo de revisão, de modernização.

Em que medida a crise financeira mundial influencia no andamento da reforma no FMI?

O Fundo Monetário avaliou mal a situação internacional nos anos que antecederam a crise. Não percebeu a dimensão e a natureza dos problemas que estavam se acumulando nos sistemas financeiros dos Estados Unidos e na Europa. O Fundo foi pego de surpresa quando a crise estourou. O choque que veio com a crise que foi muito grave e contribuiu para abalar dogmas e convicções. A crise acelerou mudanças que eram necessárias à instituição. As ideias de liberalização financeira e de desregulamentação, por exemplo, eram muito fortes antes da crise e, agora, sua credibilidade é bem menor. Passou-se a dar uma nova ênfase ao papel dos Estados, aos bancos centrais como agentes de regulação e de supervisão. Antes da crise prevalecia o pensamento de que a livre movimentação de capitais era algo essencialmente positivo. Essa ideia foi profundamente abalada pela crise. E o próprio Fundo começou a rever a sua preferência pela liberdade irrestrita do movimento de capitais. Mas, trata-se de uma revisão lenta e cheia de problemas.

E quais são os obstáculos que impedem a implementação dessas mudanças?

O FMI e o Banco Mundial são, desde a sua criação, instituições onde predominam os países do Atlântico Norte, principalmente os Estados Unidos e os principais países da Europa Ocidental. São instituições desequilibradas, uma vez que os pesos econômicos relativos estão se modificando rapidamente desde o início do século 21. Isso já vinha acontecendo antes de 2008, mas com a crise a velocidade dessa mudança se acelerou. Os BRICS registraram um grande aumento do seu peso econômico relativo. A diferença entre as taxas de crescimento dos emergentes e dos desenvolvidos aumentou ainda mais. Há um descompasso nas estruturas do Fundo Monetário e do Banco Mundial que remontam a uma outra época e ainda não se adaptaram bem a nova realidade da economia mundial do início desse século.

Em 2010, o FMI aceitou realizar uma reforma no sistema de cotas para dar mais poder aos emergentes. Mas, os EUA não ratificaram a mudança. Desde então, o que mudou?

No período pós-crise houve uma reforma em 2008, que está em vigor, que aumentou o peso do Brasil e dos outros países dos BRICS no Fundo Monetário. Em dezembro de 2010, concluiu-se uma segunda reforma, que aumentou mais uma vez o peso do Brasil, da China e dos outros emergentes. Foram dois passos insuficientes, mas significativos. A reforma de 2010, porém, não foi ainda ratificada por todos os países. Para entrar em vigor, ela precisa ser ratificada por países que tenham 85% do poder de voto. Ou seja, a entrada em vigor exige uma supermaioria. Alcançamos um pouco mais da metade da supermaioria necessária. O compromisso assinado em dezembro de 2010 é envidar os melhores esforços para ratificar o acordo até outubro de 2012, na reunião anual do FMI em Tóquio. Uma das razões do tom contundente dos BRICS é a lenta implementação da reforma de 2010.

Quais são os entraves?

De forma geral, a Europa é a grande fonte de resistência a mudanças, ainda mais do que os Estados Unidos. Mas, no caso da ratificação de 2010, o maior obstáculo são os Estados Unidos, não porque o governo americano não queria implementar a reforma, mas na conjuntura política atual, o governo Obama tem tido enorme dificuldade de fazer passar pelo Congresso certas decisões, especialmente nesse ano de eleições presidenciais. Os Estados Unidos têm 17% do poder de voto, então, se o país não ratifica, não se alcança os 85% do poder de voto. É importante que a reforma de 2010 entre em vigor, pois com ela as dez maiores economias do mundo passarão a ser também os dez maiores cotistas do Fundo Monetário: Estados Unidos, Japão, os quatro maiores europeus (Alemanha, Reino Unido, França, Itália) e os quatro maiores BRICS (China, Índia, Rússia e Brasil). Com a implementação da reforma de 2010, o Brasil passará ser o 10º cotista do Fundo, em 2007, era o 18º.

Mas já houve algum avanço?

O avanço está sendo muito difícil principalmente por causa da resistência dos europeus que relutam em cumprir o acordo de 2010 integralmente. Há avanços, mas são insuficientes. Os países super-representados tentam postergar o inevitável.

Os países integrantes do FMI se comprometeram a modificar a fórmula de cálculo de cotas e do direito ao voto antes de janeiro de 2013.

A primeira etapa é concluir até janeiro de 2013 uma revisão abrangente da fórmula de cálculo das cotas, porque elas são o principal determinante do poder de voto na instituição. Isso é parte de acordo de 2010. O acordo feito no âmbito do G20 inclui a ideia de que essa revisão geral da forma de cálculo das cotas reflita melhor o peso dos países. A revisão das cotas, que aumentará o peso dos emergentes no Fundo, vai ocorrer até janeiro de 2014.

Quais as principais propostas que o senhor apresentou à instituição para contribuir com essa mudança?

Os BRICS insistem na reforma de 2010 porque a atual fórmula de cálculo das cotas tem uma série de distorções. A fórmula deveria ser baseada essencialmente no PIB. A fórmula atualmente aplicada inclui variáveis artificiais e o principal efeito é aumentar o peso de países europeus. Pela fórmula atual, a Europa não está super-representada, mas sim subrepresentada. E esse resultado é muito estranho porque os países da União Europeia têm uma participação no PIB mundial um pouco maior do que 20% com tendência a diminuir, mas o seu poder de voto é de quase um terço do total. Enquanto que os BRICS têm 27% da economia mundial, mas o seu poder de voto representa 11% do total. Esse desequilíbrio tem de ser ajustado.

Há outras maneiras de o Brasil e os outros países do BRICS reivindicar mais poder no FMI?

Só o fato de, como conseqüência da crise, haver um apelo aos BRICS para contribuírem de maneira expressiva com recursos adicionais já implica um aumento natural da influência desses países. Na medida em que a direção do Fundo Monetário e os países europeus precisam da ajuda da China, do Brasil, da Rússia e da Índia, isso resulta automaticamente em uma influência maior.

Como o senhor avalia a criação de um banco de desenvolvimento, como uma opção de financiamento e projetos de infraestrutura aos cinco países membros do BRICS?

É uma ideia embrionária que foi discutida na cúpula de Nova Déli. Trata-se da possibilidade de criar um novo banco de desenvolvimento para mobilizar recursos para infraestrutura e projetos de desenvolvimento nos BRICS e em outros países em desenvolvimento. Os líderes dos BRICS encarregam seus ministros de Finanças de examinar a viabilidade dessa ideia.

Existe uma limitação de investimento do FMI nos países emergentes, como afirmaram os líderes dos BRICS em Nova Déli?

Não foi bem essa a informação. O possível novo banco de desenvolvimento atuaria mais no campo do Banco Mundial e não no campo do Fundo Monetário, pois o FMI não financia projetos.

É possível dizer que o fato de o Brasil, da China e da Rússia se tornarem credores do FMI provocou uma revolução no cenário internacional?

É uma modificação muito importante do status do Brasil no plano internacional. Quando cheguei ao FMI, em 2007, se alguém me dissesse que o Brasil seria credor do Fundo, a partir de 2009, eu não acreditaria. O diretor executivo brasileiro no Fundo Monetário hoje tem um peso que não tinha há alguns anos. Meus antecessores estavam pedindo empréstimos. Isso é um exemplo de como as mudanças são rápidas na economia internacional.

O FMI realizou em março um monitoramento do sistema financeiro brasileiro diante da instabilidade internacional. Apesar do bom desempenho do país, quais as principais deficiências detectadas no mercado?

A missão FMI/Banco Mundial que esteve no Brasil em março fez uma avaliação preliminar muito positiva do sistema financeiro brasileiro. Uma das dificuldades apontadas foi o desafio, ainda não inteiramente resolvido, de lidar com movimentos voláteis de capital externo. Mas a avaliação está sendo completada e ainda não foi discutida com a Diretoria.

Como o senhor avalia a questão da desindustrialização brasileira? Ela representa um entrave para o crescimento do País?

É preocupante a situação de muitos setores da indústria brasileira que vêm sendo atingidos pela força da moeda brasileira e pela concorrência externa, às vezes desleal. O governo deve continuar trabalhando para promover a indústria. É fundamental conter a valorização do real e controlar a entrada de capitais externos voláteis e de curto prazo. O Brasil precisa também continuar aprimorando e modernizando as suas políticas de defesa comercial. O Brasil deve preservar a sua base industrial. Ninguém imagina que o país tenha interesse em regredir à condição de economia exportadora de produtos primários.

Recentemente, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, afirmou que o mundo já saiu da “beira do abismo” que estava no ano passado. O senhor concorda com esse prognóstico?

A zona do euro estava à beira de um abismo no final do ano passado e como se trata de uma grande região que tem fortes conexões com o restante do mundo, a crise nessa área é um risco para as outras economias. Mas, graças à atuação do Banco Central Europeu, que injetou liquidez nos bancos, o quadro europeu melhorou. É importante lembrar que o problema não está resolvido, ainda há muita vulnerabilidade. A situação mundial se acalmou, mas ainda é muito delicada e a crise não acabou.

Especialistas afirmam que o processo de recuperação econômica será um processo lento apesar dos avanços norte-americanos. O senhor concorda?

Sim. A Europa está em recessão, com desemprego muito elevado, especialmente entre os jovens. A crise no Sul da Europa é muito grave. A recuperação será gradual. Mesmo nos EUA, a recuperação é modesta. O desemprego continua elevado, embora tenha diminuído. O legado da crise iniciada em 2008 está longe de ter sido superado.

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